F1: A anatomia da centésima vitória de Lewis Hamilton
Não foi a mais espetacular, nem a mais trabalhosa. Mas entra para a história de Lewis Hamilton e da F1 a centésima vitória na categoria. Os fãs ferraristas e de Vettel questionam o GP do Canadá de 2019, mas é conversa para outra coluna. O importante é que o piloto inglês simplesmente tem mais de 9,5% das vitórias da categoria e caminha a passos largos para ser o maior da categoria.
Mas voltemos à Sochi. A situação parecia complicada para Hamilton após a qualificação. Após ter feito uma ótima volta com os intermediários, a Mercedes fez uma chamada até certo ponto tardia para os macios e houve a batida no box. Tempo perdido para ele e Bottas, que tiveram pouco tempo para andar e não conseguiram melhorar. O 4 º lugar no grid não soou tão ruim diante do que poderia ser.
Um fator que dava um certo alívio era saber que Max Verstappen largaria do final do grid, graças à troca de elementos de motor. Oficialmente, a Mercedes alegou que Bottas apresentou um problema no motor para que trocasse mais alguns elementos e ir para a 16ª posição. Mas soou como mais uma jogada da equipe para fazer uma marcação sobre Verstappen, embora Nicholas Latifi também tenha apresentado os mesmos problemas…
Largando do lado sujo da pista, Hamilton, para contrabalançar, tinha a oportunidade de aproveitar o vácuo para ganhar algumas posições. Só que não contava com a astúcia de Lando Norris, que deu um salto aproveitando a carga da bateria. Mas não foi suficiente para ganhar a liderança. E acabou travando quem estava atrás dele. Resultado: Sainz, Russell, Stroll e Ricciardo se deram bem. Alonso acabou cortando a primeira curva e, mesmo devolvendo posições, completou a primeira volta na frente de Hamilton.
Sainz ter ido para a liderança acabou sendo algo bom para a prova: A Ferrari sabia que não tinha condições de manter a posição e tentou fazer o melhor que poderia. Só que os pneus do espanhol foram rapidamente para a lona. Norris foi para cima e ultrapassou o Sainz. Mas um pouco antes, Russell ia em terceiro e fazendo o papel de “parede”. A Aston Martin optou por trazer Stroll para os boxes na 12ª volta para tentar livrar das Williams. Esta situação acabou por iniciar a janela de paradas.
Com Norris em primeiro e a saída de Sainz e Russell do grupo da frente, o ritmo aumentou. Hamilton agora estava em 3º e monitorando a subida de Verstappen, que na 15ª volta, estava em 6º, pouco mais de 9 segundos atrás de Hamilton. Para quem havia largado em último e estava com pneus duros, o jogo estava bem interessante…Enquanto isso, Norris já estava 8 segundos à frente de Ricciardo.
Hamilton tinha mais ritmo do que o australiano, porém não conseguia ultrapassá-lo. Desta vez, a parede era Ricciardo e vinha compactando o pelotão. O que fica claro na sequência de voltas do quadro a seguir:

O inglês precisava agir. Se queria fazer algo, não poderia esperar muito. Mas a McLaren tinha uma boa velocidade em reta, o que fazia a ultrapassagem algo difícil, mesmo com o DRS ligado. E Verstappen vinha se aproximando. Na volta 20, a diferença era de pouco mais de 3 segundos…
Na volta 21, a Mercedes jogou uma de suas velhas ferramentas: o blefe. Foi toda para o pit como se fosse uma parada de Hamilton. Tudo se encaminhava para um undercut e a McLaren, para marcar, chamou Ricciardo. A Mercedes desistiu e ficou tarde para a McLaren refazer. Aí começou o Hammertime de Hamilton para ganhar a posição na pista.
Tão logo teve pista livre, o 44 pisou e veio reduzindo a diferença. Na volta 22, era de 13 segundos. Na 25, bateu em 11,4 segundos. E a diferença para Verstappen voltava para a casa dos 6 segundos. Neste momento, a situação para que as chances de Hamilton vencer estavam se recuperando.
Na volta 26, a jogada: Hamilton é chamado pela Mercedes e, num misto de marcação e necessidade mesmo, já que os tempos vinham subindo, Verstappen também entra. A Mercedes trabalha bem e Hamilton volta em 9º, colado em Lance Stroll. Norris faz sua parada e volta à frente. Mas pouco mais de 7 segundos do inglês, que já havia se liberado da Aston Martin 18.
A partir daí, voltou a ser uma briga direta Norris e Hamilton. À frente, havia Leclerc, Alonso e Perez que não haviam parado. Na volta 37, estes três haviam feito suas trocas e a Mercedes 44 estava pouco mais de 2 segundos da McLaren 4. A esta altura, Verstappen estava em 6º, 25 segundos atrás de Norris e já sofrendo com os médios… Tanto que Alonso o passou com extrema facilidade…

Parecia uma questão de tempo a ultrapassagem de Hamilton. Mas mais uma vez, ele tinha uma McLaren muito boa de reta à sua frente. Além disso, o eterno cuidado para não estragar os pneus com a turbulência. Neste momento, as equipes alertavam seus pilotos para uma possibilidade de chuva nas voltas finais da prova…
Até a volta 48 as coisas estavam bem encaminhadas. Até que começou a chuva. Localizada em um primeiro momento. Mas depois começou a forçar. Aí, começa a briga entre pilotos e equipes para decidir se entravam ou não para colocar os intermediários. Logo veio a imagem de Kyalami 93, quando teve um temporal nas duas últimas voltas. Sem contar a retomada da façanha de Barrichello na Alemanha 2000.
Norris discutiu com o time e ambos decidiram seguir na pista, já que não parecia tão ruim. Hamilton também travou esta discussão, mas ao ver Norris perder o controle e ir para fora da pista, resolveu ouvir o time e parou. Aí, ganhou a prova.
Mas uma volta antes, Verstappen foi chamado e colocou os intermediários. Nesta jogada também teve seu golpe de sorte e apareceu em 2º lugar. Uma verdadeira vitória diante das circunstâncias e o menor dos males diante da disputa com Hamilton.
53 voltas depois, o GP da Rússia de 2021 entrava para a história. Fica marcado para sempre como a 100ª vitória de Lewis Hamilton. Teremos que esperar mais um pouco para ver se pode ser considerado como um ponto de virada para o campeonato deste ano. Mas ninguém esperava uma prova com tantas variações assim.
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