Os abacaxis de Antonio Filosa na Quitanda Global da Stellantis

Filosa quer transformar abacaxi em suco (Guia do Carro/Studio IA)

A alta cúpula da surpermontadora Stellantis se reuniu em Auburn Hills, nos Estados Unidos, para comunicar ao mundo o que vai fazer com suas 13 marcas de automóveis: Alfa Romeo, Chrysler, Citroën, Dodge, DS, Fiat, Jeep, Lancia, Maserati, Opel, Peugeot, Ram e Vauxhall. foi o desfecho de uma reorganização completa na Quitanda Global da Stellantis. E isso aconteceu porque Antonio Filosa, o CEO global, percebeu que tinha muitos abacaxis nas mãos.

Filosa não plantou os abacaxis; ele os ganhou. Lidar com um abacaxi – fruta espinhosa, que exige paciência e cuidado no trato – é possível, mas quando eles são a maioria, perde-se tempo, energia e dinheiro para descascar cada um deles. Também não é justo acusar o antigo CEO, Carlos Tavares, de ter aberto uma quitanda só com abacaxis; ele apenas foi chamado a administrar.

Imagina reunir frutas dos Estados Unidos, da França, Itália, Alemanha, Inglaterra e Brasil, colocar tudo na mesma quitanda e oferecer ao mundo sem as devidas separações de gostos, costumes e poder aquisitivo. Houve uma altura em que Tavares queria enfiar goela abaixo dos estadunidenses a fórmula francesa de carros elétricos da Peugeot e Citroën como se fossem morangos Gariguettes.

Mas do outro lado do Otanistão as pessoas queriam mirtilos, mangas e bananas – ou picapes grandes, SUVs enormes e motores potentes a combustão. Tavares não soube lidar com isso, e acabou transformando quase todas as frutas em abacaxis. Embora seja um executivo expecional, sua origem portuguesa o levou a cometer alguns erros, que Filosa, um italiano, talvez não cometa.

Visão colonialista e visão inclusiva

Carlos Tavares tem uma visão colonialista do mundo. Para ele, o Brasil pode muito bem viver sem carros elétricos por toda a eternidade, pois tem etanol. Tudo bem se o Brasil se transformar num grande fazendão de cana-de-açúcar, desde que entregue lucros para a Europa continuar liderando a corrida tecnológica – ou que tenha recursos para disputá-la com a China. Essa mesma visão colonialista incluiu os Estados Unidos e isso foi um erro brutal.

Antonio Filosa também é europeu, mas é italiano e isso faz muita diferença. Quando Filosa olha para os Estados Unidos, ele vê uma terra que proporcionou liberdade e oportunidade. Quando olha para o Brasil, vê um país onde italianos foram convidados e financiados para trabalhar na lavoura e possuir lotes de terra. Por óbvio, nada disso é explícito, mas está culturalmente arraigado em portugueses e italianos.

Para além disso, o Brasil é o país que acolheu a Fiat e que deu a ela a chance de continuar viva num mundo extremamente competitivo. Filosa já sabe que Peugeot e Citroën jamais terão no Brasil o mesmo apelo, a mesma sintonia e a mesma importância que a Fiat tem. E que a Jeep conquistou rapidamente.

Por isso, “Don” Elkhann, do alto da cadeira de Chairman, se entende com acionistas dos Estados Unidos e da Europa, Filosa, o “capo di tutti i capi” botou a mão na massa, analisou a situação e bradou algo com esse sentido:

–“Basta! Chega de vender só abacaxi nessa quitanda! Mamma mia, quero vender fruta de verdade, não só problema!”

A nova Quitanda do Antonio Filosa

Por isso, a nova Quitanda Global da Stellantis, reorganizada por Filosa, ficou assim:

  • uma única plataforma global, STLA One, para os segmentos B, C e D (compactos, médios e grandes) e com estrutura modular preparada desde a origem para diferentes sistemas de energia.
  • metade da produção concentrada em apenas três plataformas globais até 2030, com até 70% de reaproveitamento de componentes.
  • expansão do uso de baterias LFP (lítio-ferro-fosfato) para ampliar a acessibilidade dos veículos elétricos e reduzir a dependência de matérias-primas críticas.
  • esforço global e 70% dos investimentos em apenas quatro marcas: Jeep, Ram, Peugeot e Fiat.
  • diferenciação das marcas regionais Chrysler (EUA), Dodge (EUA), Citroën (França), Opel (Alemanha) e Alfa Romeo (Itália) para que continuem sendo relevantes em seus mercados. Vauxhall (Reino Unido) nem foi citada.
  • DS e Lancia passa a ser desenvolvidas como marcas de nicho, sob gestão da Citroën e da Fiat, respectivamente. Abarth (submarca esportiva da Fiat) não foi citada.
  • Finalmente, a Maserati, marca de luxo da Stellantis, terá atenção especial e receberá dois novos modelos do segmento E (extra-grande), então podemos esperar que ela tenha dois espaços nobre na Quitanda Global e seja oferecida como uma Cereja da Apúlia, um Limão de Amalfi, um Marrone di Mugello ou como Figos Brancos de Cilento.

Na Quitanda do Antonio Filosa vai ter de tudo, frutas populares e caras, frutas para norte-americano, sul-americano, europeu e até chinês, graças ao renovado acordo da Stellantis com a Dongfeng para produzir Peugeot e Jeep eletrificados.

Quanto aos abacaxis, eles ainda existem, mas serão descascados pelos capos regionais – como Herlander Zola, que precisa decidir o destino da Peugeot e Citroën no Brasil – e precisam ser servidos como suco. Eis tudo. Quase tudo.


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