Brasil vai perder o bonde da história se proteger Fiat, Volkswagen e Chevrolet?
Proteger Fiat, Volkswagen e Chevrolet pode ajudar a preservar empregos no curto prazo — mas também pode atrasar o Brasil na corrida global da nova indústria automotiva. O avanço das marcas chinesas e da eletrificação coloca o país diante de uma escolha estratégica.
O debate não é simples. As três montadoras formam há décadas o “trio de ferro” do mercado brasileiro, com forte presença industrial, histórica e cultural. Mas o cenário mudou, e a proteção excessiva pode ter custo alto no longo prazo.
Ao longo da história, as três marcas que mais venderam carros no Brasil foram a Fiat, a Volkswagen e a Chevrolet. Por isso, o público tem muita confiança e o governo tem muito apreço nessas marcas.
Frequentemente, elas são chamadas de montadoras nacionais. Afinal, todas elas fizeram dezenas de projetos pensados para o Brasil. Fiat, Volkswagen e Chevrolet conquistaram como poucas marcas o coração dos brasileiros. Investiram no país, criaram empregos, trouxeram engenharia, exportaram carros com selo do Brasil e patrocinaram a cultura, o futebol, o carnaval. Ainda fazem tudo isso.
Legado da Chevrolet tem Opala, Monza e D20
A Chevrolet serviu o Brasil com carros memoráveis, como o Opala, o Chevette, o Monza, o Corsa e o Onix da primeira geração. Isso sem contar o pioneirismo das picapes C10/C20 e D10/D20.
Volkswagen coloriu as ruas do Brasil com milhões de Fuscas
A Volkswagen implantou no Brasil nada menos do que a produção do Käfer, o Beetle, que carinhosamente foi chamado de Fuque e depois se firmou como Fusca. Esse carro praticamente motorizou o Brasil, com uma mecânica simples, uma configuração robusta com motor traseiro e tração traseira e um design incomparável.
Milhões de VW Sedan (seu nome oficial) saíram da fábrica da Anchieta, em São Bernardo do Campo, para colorir as ruas brasileiras de vermelho, azul, amarelo, verde, bege e laranja. Ter um Fusca era ter um passaporte de cidadania, era um símbolo de liberdade e conquista.
E o que falar de modelos populares como Brasília, Gol, Voyage, Parati, Santana e T-Cross? Ou da importância da Kombi e da Saveiro para milhares de pequenos empreendedores?
Carros da Fiat são inovadores e dominam o século 21
A Fiat foi a última das três grandes a chegar, em 1976. Mas não deixou por menos. Radicalizou o conceito de carro pequeno e acessível com o 147, criou a primeira picapinha, tornou o segmento de picapes pequenas um mercado atraente com a Fiorino, virou fenômeno de vendas com a Strada, popularizou a picape 4×4 a diesel com a Toro e esteve à frente de quase todas as novidades tecnológicas.
Foi a Fiat quem criou o conceito de carro popular, o “carro 1000”, com motor 1.0 e isenção de impostos para ficar mais barato. O Uno Mille mudou o mercado. Para além disso, a Fiat quebrou o paradigma dos carros de duas portas ao insistir nas quatro portas para modelos como Uno, Prêmio e Elba, mostrou que sedã pequeno poderia ter porta-malas gigante e se tornou a marca dominante do século 21, como a Volkswagen foi no século 20.
Portanto, se fizeram tanto, por que não proteger essa indústria? Cativas no coração dos motoristas e das famílias brasileiras, o trio de ferro Fiat, Volkswagen e Chevrolet representa também outras tantas que ganharam mais importância depois, como Toyota, Renault, Honda e Hyundai. Todas elas, por consequência, contaram e contam com alguma proteção do governo.
Montadoras tradicionais podem ter ficado acomodadas
Mas isso também as deixaram acomodadas. Ninguém imaginava que o mundo automotivo fosse mudar tão rápido e que os carros fabricados na China se tornaram hiper desejados pelo público, por trazerem tecnologias de conectividade, segurança e automação a preços acessíveis. Mais ainda: trazem veículos elétricos e híbridos plug-in – com forte impacto na descarbonização – que não são sequer considerados no portfólio das marcas tradicionais.
E aqui vem a diferença de uma marca nacional para uma estrangeira. Durante um tempo se disse que Fiat, VW e GM (dona da Chevrolet) eram multinacionais. Mas esse termo é errado. Todas as montadoras instaladas no Brasil são transnacionais. Ou seja: elas têm uma sede, mas atuam em diferentes nações. E seguem o interesse da sede global.
Brasil aposta no etanol, mas o mundo quer terras raras
A questão aqui é que Fiat, Volkswagen e Chevrolet agora dependem do incentivo governamental para uma tecnologia fadada ao fracasso, que é o etanol, quando o mundo inteiro está de olho nas terras raras que viabilizam as baterias dos carros elétricos e os chips de Inteligência Artificial. O Brasil tem essas terras, mas ainda não sabe o que fazer com elas.
Afinal, as mais brasileiras das marcas transnacionais – Fiat, Volkswagen e Chevrolet – não avançaram o suficiente, nos carros feitos no Brasil, para esquecer o etanol, uma ideia dos anos 70, e focar na matéria prima que será ouro nos vindouros anos 30: as terras raras. Só 30% dos motoristas usam etanol e ele tem monopólio de usineiros da cana-de-açúcar, que manipulam preços e distribuição. Ninguém confia.
A questão é saber se neste novo Brasil automotivo a Fiat, a Volkswagen e a Chevrolet darão o grande passo adiante para continuarem sendo as marcas automotivas preferidas dos brasileiros. Tradição, confiança e apoio oficial não lhes faltam.
O bonde da história está passando muito mais rápido do que parece. Então a dúvida é pertinente: o Brasil perdeu o bonde esperando as novas tecnologias da Fiat, Volkswagen e Chevrolet? Elas vão querer embarcar nele sem estarem presas à âncora do passado? Na Europa, a Volkswagen lançou o ID. Polo,um elétrico de 25 mil euros e alcance de 452 km (WLTP) justamente para que a Alemanha se defenda da China.
Se ousarem dar esse passo, o que parece pouco provável, em pouco tempo teremos modelos elétricos da Fiat, da Volks e da Chevrolet produzidos em grande volume no Brasil, inclusive para serem exportados. Se não, o novo Fusca vai ser o Dolphin Mini, a nova Toro vai ser a picape BYD Mako e o novo Onix vai ser o Geely EX2.
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