Ferrari Luce derruba ações? Os números contam outra história

Ferrari Luce: design polêmico, mas ações não contam tudo (Divulgação Ferrari)

O Ferrari Luce foi apresentado oficialmente em 25 de maio de 2026, em Roma. Poucas horas depois, surgiram manchetes sobre uma forte reação negativa do mercado financeiro ao primeiro Ferrari elétrico.

Os números confirmam que houve queda nas ações. Mas também mostram que a história é mais ampla do que a reação do primeiro pregão. Na NYSE, onde a Ferrari negocia sob o ticker RACE, a ação vinha de uma alta relevante antes do lançamento. Em 18 de maio, o papel estava em US$ 324,77. Em 22 de maio, havia subido para US$ 348,24, avanço de 7,23% em quatro dias úteis.

Após o reveal do Ferrari Luce, veio a correção. Em 26 de maio, primeiro pregão pós-evento, RACE fechou em US$ 329,91, queda de 5,26% frente ao nível de 22 de maio. Em Milão, a Reuters registrou queda de até 8,4%.

Mas a movimentação não terminou ali. Em 27 de maio, a ação foi para US$ 333,22. Em 28 de maio, avançou para US$ 346,35, recuperação de 4,98% sobre o pregão de 26 de maio. Na prática, dois dias após o choque inicial, o papel já havia retornado para perto do patamar pré-lançamento.

Ações da Ferrari: tendência estrutural continua positiva

O episódio do Ferrari Luce acontece num contexto maior. Apesar da volatilidade recente, a Ferrari passou os últimos anos consolidando uma das histórias financeiras mais fortes do setor automotivo. A ação sofreu pressão em parte de 2022, num ambiente global de inflação, juros elevados e turbulência nos mercados. Mas a trajetória posterior foi de recuperação e valorização.

Em 2024, impulsionada por resultados robustos, margens elevadas e forte capacidade de precificação, a Ferrari se aproximou de US$ 100 bilhões em valor de mercado. A empresa também se consolidou como uma das montadoras mais valiosas da Europa em market cap.

Vendas da Ferrari cresceram quase 24% em três anos

As entregas ajudam a explicar parte desse desempenho. A Ferrari passou de 11.115 carros em 2021 para 13.752 unidades em 2024. Isso representa crescimento de aproximadamente 23,7%. Para uma fabricante que constrói parte de sua estratégia em torno da escassez controlada, o número chama atenção. A Ferrari claramente mira a China.

Mas existe outro dado relevante: a Ferrari frequentemente consegue aumentar lucro mais rapidamente do que aumenta volume.

Em 2024, por exemplo, a marca entregou 13.752 carros, apenas 89 unidades a mais do que em 2023. Mesmo assim, registrou crescimento financeiro significativo. Segundo a Reuters, o desempenho foi impulsionado por fatores como pricing power, personalização, mix de produto e versões especiais.

Purosangue e Hamilton ajudam a colocar o Luce em perspectiva

O Luce não é o primeiro episódio recente em que a Ferrari mobiliza forte reação pública ou financeira. O Ferrari Purosangue, apresentado em setembro de 2022, marcou a entrada oficial da marca no segmento dos SUVs.

Naquele período, RACE passou por um ciclo de fraqueza, mas meses depois a ação já negociava acima dos níveis do período do lançamento.

Outro caso veio em 1º de fevereiro de 2024, com o anúncio de Lewis Hamilton na Scuderia Ferrari. Segundo a Reuters, a ação vinha pressionada nas semanas anteriores. Após o anúncio – combinado com resultados financeiros fortes – RACE chegou a subir até 9,5%.

Os três episódios mostram que, no caso da Ferrari, produto, esporte, identidade de marca, resultados financeiros e expectativa de mercado frequentemente aparecem entrelaçados.

No curto prazo, isso pode gerar reações intensas. No médio e longo prazo, os números costumam exigir uma leitura mais ampla do que a manchete do dia. Por isso, apesar do design polêmico do Ferrari Luce, que abandonou o estilo Pininfarina, ainda é cedo para tirar conclusões econômicas.

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