GWM encontrou a “fórmula mágica” e mostra o caminho para sobreviver na guerra automotiva
Na atual conjuntura, em que o desenvolvimento de um automóvel, do zero ao salão de vendas da concessionária chega a custar US$ 6 bilhões (o equivalente a R$ 29,5 bilhões) para uma montadora ocidental, a chinesa Great Wall Motor (GWM) reafirmou, durante a apresentação do novo V9X, lançamento da sua marca Wey que já está em pré-venda, que as plataformas únicas são a solução definitiva para suporte dos cinco tipos de motorização que dominam o mercado e tendem a ser ainda mais dominantes, na próxima década.
Para o presidente da companhia, Wei Jianjun, os fabricantes que não adotarem este conceito reduzirão suas exportações, em curto e médio prazos, perdendo competitividade, em médio e longo prazos. “A base GWM One, que o novo Wey V9X estreia, permite o desenvolvimento e produção de modelos híbridos sem recarga externa (HEV), híbridos plug-in (PHEV), veículos 100% elétricos (EVs) ou com célula a combustível (FCEV), além de modelos equipados com motores a combustão interna”, destaca o executivo.
“Mais do que flexibilidade para todos esses trens de força, estamos diante de uma plataforma que pode ser usada por sedãs, monovolumes, SUVs – como o próprio V9X – e picapes, que dará vida a mais de 50 futuros lançamentos de nosso grupo”, adianta Jianjun.
Plataforma única: sentença de morte para modelos atuais?
A primeira vantagem da base única são ajustes “sob medida”, que permitem à engenharia uma rápida adaptação às regulações locais e às condições de rodagem dos mais variados países – da Suíça aos rincões do Brasil, do Oriente Médio ao Canadá. Apenas para se ter uma ideia, a plataforma GWM One possibilita a comutação de 95% dos componentes. A segunda vantagem é uma sensível redução nos custos de desenvolvimento da “prancheta” até a linha de montagem, economizando tempo e apoiando a fabricação regionalizada, descentralizando e barateando a produção.
Os quatro modelos que, inicialmente, usarão a nova base consumiram o investimento de US$ 1,5 bilhão (o equivalente a R$ 7,3 bilhões) que, anteriormente, bancava a concepção e manufatura de apenas 1,8 modelo.
Por fim, trata-se de uma estratégia de longo prazo, em que, ao invés de competir com as velhas marcas ocidentais apenas em preço, cria-se um novo padrão de qualidade que se traduz em maior competitividade, quando se salta da disputa pulverizada em diversos nichos para a rápida implementação de um portfólio global.
“Essa arquitetura decompõe um veículo em mais de 300 unidades de hardware padronizadas e mais de 2.000 etiquetas de serviço de software”, detalha o presidente-executivo (CEO) da marca Great Wall, Mu Feng. “Ao combinar esses ‘tipos’ modulares com inteligência artificial (IA) nativa, fabricamos carros destacáveis, combináveis e expansíveis de múltiplas categorias e sistemas de propulsão”, enfatiza Feng.
“Autorrevolução” se tornou essencial, mesmo para as chinesas
O Salão de Pequim 2026 (Auto China) já havia revelado a imensa transformação estrutural da indústria automotiva chinesa. “A China está ditando o ritmo com uma ‘autorrevolução’. Isso significa um cenário em rápida evolução, definido por velocidade, tecnologia e uma reformulação fundamental de como os carros são construídos, isso sem falar em como se proporciona uma nova experiência ao dirigir”, disse o diretor-executivo e líder global para mobilidade da consultoria Accenture, Jürgen Reers.
“Onde até bem pouco tempo a capacidade da bateria, a velocidade de carregamento e o desempenho do trem de força dominavam as discussões, o foco mudou radicalmente. O acesso à tecnologia deixou de ser um diferencial e a vantagem competitiva, a partir de agora, reside na execução, na forma de integração, de composição dessas tecnologias”, complementou Reers
Pior para as companhias ocidentais, a democratização de tecnologias de ponta, sistemas inteligentes e das funções de direção autônoma estão migrando dos modelos topo de linha, rapidamente, para compactos e “populares”. Mesmo a eletrificação, campo de batalha decisivo em que as velhas marcas já capitularam diante dos novos titãs chineses, tornou-se uma commodity de baixo valor agregado.
Montadoras chinesas já estão muito além da eletrificação
“As montadoras chinesas estão muito além da virada da eletromobilidade como a enxergamos daqui, do ‘lado de fora’. A CATL, por exemplo, já tem pronta uma bateria que garante um alcance de 1.500 quilômetros sem necessidade de recarga, encerrando essa discussão. A questão, agora, é que elas já estão atacando BMW e Mercedes-Benz com um novo conceito de excelência, em que a engenharia e a tradição serão suplantadas por novos recursos tecnológicos e pela experiência digital”, pontua o analista e gerente da área automotiva da consultoria de gestão Arthur D. Little, Nicola Borgo.
Para ele, as plataformas únicas são a mais atual expressão da integração chinesa com os fornecedores, em oposição à abordagem mais verticalizada das velhas fabricantes. “Essas novas marcas são ‘orquestradoras de tecnologias’, enquanto as antigas seguem como meras montadoras”, expõe Borgo.
Como o leitor adulto bem sabe, o valor de uma marca ainda é um ativo poderoso, principalmente nos segmentos mais altos de mercado. Da mesma forma, a Engenharia estabeleceu padrões reconhecidos mundialmente, mas esses atrativos já não são suficientes, por si só. À medida que as novas gigantes chinesas avançam em qualidade, ao mesmo tempo que se destacam na velocidade e nos softwares, as fabricantes europeias estão paralisadas.
As plataformas únicas não se prestam, apenas e tão somente, ao desenvolvimento e à produção de automóveis superiores, mas redefinem o que é um carro com novas capacidades, mais agilidade e integração no ecossistema industrial. Não é por outra razão que, hoje, quem compra um zero-quilômetro de qualquer uma das velhas marcas ocidentais está andando para trás.
Valor de marca e engenharia já não fazem “milagres”
O valor de uma marca ainda é um ativo poderoso, principalmente nos segmentos mais altos de mercado. Da mesma forma, a Engenharia estabeleceu padrões reconhecidos mundialmente, mas esses atrativos já não são suficientes, por si só. À medida que as novas gigantes chinesas avançam em qualidade, ao mesmo tempo que se destacam na velocidade e nos softwares, as fabricantes europeias estão paralisadas.
As plataformas únicas não se prestam, apenas e tão somente, ao desenvolvimento e à produção de automóveis superiores, mas redefinem o que é um carro com novas capacidades, mais agilidade e integração no ecossistema industrial. Não é por outra razão que, hoje, quem compra um zero-quilômetro de qualquer uma das velhas marcas ocidentais está andando para trás.
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