F1 e Arábia Saudita: entre muros e mísseis, vale o dinheiro
Ser um fã de F1 é conviver com uma dupla personalidade. Você sabe que uma, quando está tudo bem, é talvez a mais maravilhosa do mundo. Mas quando a personalidade mais profunda aparece, você se impressiona com atitudes e se pergunta por que ainda segue com ela.
Como até escrevi umas semanas atrás, a F1 sofre com este transtorno (ver aqui). Ela quer soar mais moderna, mais engajada, mais antenada com valores “elevados”. Só que o lado ganancioso, especialmente alimentado pelo “Deus dinheiro”, acaba por fazer com que certos padrões morais sejam bem relaxados e se pense no lucro.
Ok, a conta tem que ser paga. Não podemos ser hipócritas. Todos nós nos vemos presos a compromissos, formais ou não. O velho sábio escreveu que os fins justificam os meios. Mas a que custo? Eis aqui a pergunta.
Correr na Arabia Saudita já foi uma decisão complicada. Dado o histórico dos últimos anos do país em termos de Direitos Humanos e ainda mais recentemente com os ataques empreendidos pelos Houthis por conta de uma guerra extremamente destrutiva e sangrenta que se desenvolve no Iêmen, aceitar correr lá não deixa de ser uma relativização e dá razão a quem chama a F1 de mercantilista.
Isso, a F1 já é há tempos. Frank Williams já dizia que a F1 é realmente um esporte durante duas horas de um domingo. O resto é negócios e política. A F1 já correu em países sob regimes políticos dos mais diversos matizes e nunca se envergonhou de onde vinha o dinheiro. O mote máximo era cumprir o prometido. Foi por muito tempo com Bernie Ecclestone e segue assim com a Liberty Media, dentro do bom e velho pragmatismo americano de negócios.
Neste quadro, fica difícil defender um quadro de banimento ao GP da Rússia pela invasão da Ucrânia, mas a manutenção de uma corrida em um país alvejado por mísseis e com um histórico nada desprezível em termos de acusações de desrespeito.
Escrevo este texto logo após a notícia de que a F1 decidiu que vai seguir com os planos, dadas as garantias dadas pelos sauditas e até se diz que uma certa chantagem. Afinal, a Aramco, petroleira local, é quem despeja um bom valor como patrocinadora da categoria, da Aston Martin e do próprio GP.
É difícil defender. Este é um daqueles momentos em que os pilotos se unem, como Espanha 1975, África do Sul 1982 e Indianápolis 2005. Mas da mesma forma que são olhados pelo público, acabam sendo uma parte fraca diante da estrutura. Teriam eles força para poder impor sua vontade?

Como escrevi mais cedo no twitter, para todo o histórico da F1 em relação a impasses políticos, correr na Arabia Saudita com mísseis caindo é uma atualização de software. O principal está lá, intacto a 72 anos. Mas vai se atualizando para manter a roda girando. Mas a dose que salva pode ser a que mata.
Diante de um novo publico a F1 vai ter que pensar se manter a postura vale a pena. Não é uma preocupação só do automobilismo, mas também de tantos outros. O futebol talvez seja um dos exemplos mais acabados nos últimos anos e boa parte do público opta por ver aquilo que lhe agrada, ignorando certos aspectos.
Cabe agora torcer para que tudo acaba da melhor forma. Esta era uma situação evitável. Mas, independentemente do que aconteça daqui por diante, a mancha já ficou. A F1 2022 não merecia esta carga.
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