Como a Fiat e a Volkswagen deram um tiro no próprio pé
A imbatível Fiat e a poderosa Volkswagen lideram com folga o mercado automotivo brasileiro. Juntas, elas detêm 38% do mercado e vendem 970 mil carros por ano. Mas, apesar disso, nunca tiveram sua dominância tão ameaçada.
A razão é uma só: por questões estratégicas globais, a Fiat e a Volkswagen lideram a resistência da Anfavea à aceleração do mercado de carros elétricos e híbridos plug-in no Brasil. Do zero ou perto disso, as tarifas de importação deram um salto impressionante. Isso arrefeceu o crescimento desses dois segmentos, mas não o matou.
As razões da Fiat
A Fiat não tinha (e não tem até hoje) carros elétricos competitivos na Europa. Como o Brasil é fundamental para o negócio global da Fiat, pois praticamente o sustenta, Turim quis ganhar tempo no Brasil e aproveitar ao máximo sua incrível capacidade de transformar quase todos os seus carros em ouro.
As razões da Volkswagen
A Volkswagen, ao contrário, tinha carros para entrar no mercado de EVs e PHEVs, mas dependia muito (e ainda depende) do lucro da VW do Brasil para bancar (em parte) a revolução elétrica que faz em sua linha de produtos na Europa e na China. Wolfsburg não queria transformar sua “vaca leiteira” num dragão insaciável por recursos.
Onde a Fiat e Volks erraram
Com um forte discurso de defesa da “indústria nacional”, a Anfavea comprou a briga de suas associadas mais valiosas, arrastou a Toyota, a Renault e até a GM (que antes era contra) para a causa, convenceu o governo a impor tarifas pesadas e os carros chineses tiveram que repensar a estratégia.
Esse foi o tiro no pé. Ou nos pés, já que estamos falando da Fiat e da Volkswagen.
Se tudo tivesse ficado como estava, as montadoras chinesas e europeias iam “turbinar” o mercado brasileiro de carros elétricos e híbridos plug-in. De alguma forma estariam criando as condições para que as tradicionais Fiat, Volkswagen, Chevrolet, Toyota, Honda, Hyundai, Renault e Jeep continuassem sem concorrência nos carros a combustão.
As tarifas poderiam ter crescido só para os híbridos comuns (HEV), semi-híbridos (MHEV 48V) e micro-híbridos (MHEV 12V). Esse campo estaria aberto para a “indústria nacional” — que coloco entre aspas porque é, na real, uma indústria transnacional, com sede na Europa, Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul.
Mas, do jeito que as coisas foram feitas, as montadoras chinesas decidiram competir diretamente no mercado de carros a combustão. Como precisam montar EVs e PHEVs no Brasil para ter acesso aos incentivos fiscais, elas precisam ter volume. E onde elas foram achar volume? Exatamente nos carros a combustão — o reino onde Fiat e Volkswagen são soberanos implacáveis.
“Agora Inês é morta”, já se diz no Brasil desde os tempos imperiais. As marcas chinesas agora atacam o coração das montadoras tradicionais. Especialmente a GAC, a OModa Jaecoo e a Changan apostam em carros a combustão com um custo-benefício como nunca se viu no Brasil. Seguem a mesma linha da CAOA Chery, que antes era única e agora está replicada na CAOA Changan e na Renault Geely.
Fiat e Volkswagen deram tiros nos próprios pés. Ainda lideram com muita folga. Mas o mercado está mudando com uma velocidade maior do que previam e logo serão cobradas por elétricos puros ou eletrificados de alto nível.
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