30 mil não bastam! Volkswagen precisa demitir 100 mil funcionários para curar suas feridas
O Grupo Volkswagen informou o conselho de trabalhadores alemão que as 30 mil demissões até 2030, recentemente acordadas, são insuficientes para manter os negócios. Com isso, até 100 mil postos de trabalho – quase 15% dos 666 mil colaboradores que a empresa tem em todo o mundo – podem ser suprimidos só na Alemanha, onde 1/3 de seu quadro seria demitido com o fechamento das fábricas de Hanover, Zwickau, Emden e Neckarsulm (Audi).
As informações eram confidenciais, mas foram acessadas pela Agência Reuters, que procurou a assessoria da Volks que, por sua vez, não negou aquela que será a maior “reestruturação” da história, no setor automotivo, superando os 74 mil empregos suprimidos pela General Motors no início dos anos 90 e durante a concordata de 2009.
Nos últimos cinco anos, a capitalização de mercado da VW derreteu de US$ 184,4 bilhões (o equivalente a R$ 950 bilhões ou quase um trilhão de reais) para US$ 40 bilhões (R$ 205 bilhões), uma perda de 80% – hoje, a Volkswagen com todas suas 12 marcas, dentre elas Audi, Porsche, Skoda, Seat, Lamborghini e Bentley, fábricas e contratos vale menos do que a Ambev brasileira, do setor de bebidas.
“Todo o grupo, incluindo suas marcas e subsidiárias, precisa passar por mudanças profundas”, disse o presidente-executivo (CEO), Oliver Blume, que propôs separar a marca principal das operações de autopeças. “Precisamos de apoio para novos cortes, porque enfrentaremos muita resistência dos sindicatos e do governo da Baixa Saxônia, segundo maior acionista da companhia”, acrescenta Blume.
Ele ainda quer reduzir os investimentos programados para o próximo quinquênio em 15%, para 130 bilhões de euros (o equivalente a R$ 760 bilhões). Por lá, as ações da Volkswagen fecharam a última sexta-feira (27 de junho) com queda de quase 3,5%, e a menor cotação em 16 anos. Na prática, isso quer dizer que os investidores estão descrentes quanto ao sucesso da reestruturação.
“Facão” do corte pode atingir o Brasil?
O “facão” não deve impactar tanto a subsidiária brasileira, já que o plano de investimento de R$ 16 bilhões até 2028, previsto para a Terra de Vera Cruz, é um grão de areia (2%) no oceano da Volks que, mesmo secando lentamente, precisa cada vez mais das remessas de lucro que os tupiniquins enviam para a matriz – só em serviços financeiros, a receita VW no Brasil foi de quase R$ 7 bilhões, segundo seu próprio relatório anual de 2024.

Todavia, nunca é demais lembrar que, em 2023, a Volks fechou sua fábrica russa e, no final de 2024, vendeu seu banco local. Em fevereiro de 2025, a Audi também fechou as portas na Bélgica e a fábrica turca, prometida para 2020, nunca saiu do papel – neste último caso, a “culpa” foi atribuída ao coronavírus.
“Na verdade, os executivos à frente da companhia não conseguem resolver o problema da VW, que não são os custos elevados, mas a queda nas vendas”, avalia o diretor de governança corporativa da Deka Investment, Ingo Speich. Os fundos da Deka detêm participação significativa nos 10% de ações de livre circulação da Volks e seus representantes têm voz nas assembleias gerais (AGOs) anuais.
“Os custos são apenas uma desculpa esfarrapada de uma montadora que precisa lançar produtos – vulgo, veículos – atraentes e que tenham grande demanda. Feito isso, não se falaria mais sobre custos”, acrescenta Speich, lembrando que as vendas mundiais do grupo caíram 4%, só no primeiro trimestre deste ano, com perdas de 15%, na China, e 20%, nos Estados Unidos.
“Culpa” é da China, dizem (e vai piorar)
“Estamos vendo a realidade atingir esta verdadeira gigante alemã, só isso”, comenta o analista, fundador da consultoria britânica Schmidt Automotive Research e ex-diretor da Automotive Industry Data, Matthias Schmidt.
“As antigas montadoras têm perdido terreno progressivamente para os EVs chineses e sua participação, que era de quase 60%, em 2020, caiu para pouco mais de 30%, no ano passado. Pior, a Volks foi a principal fabricante de automóveis da China durante anos, sendo ultrapassada pela BYD, em 2024, e caindo para o terceiro lugar, no ano passado. E o cenário só tende a se agravar, já que os novos titãs chineses estão se expandindo para mercados emergentes e crescendo rapidamente no território da Volkswagen, que é a Europa, onde dezenas de novos concorrentes planejam inundar o mercado com seus lançamentos”, acrescenta Schimidt.
De volta ao Brasil, sede da primeira grande fábrica da empresa fora da Alemanha, inaugurada em 1959, e onde existe um histórico de nada menos que 25 milhões de automóveis produzidos, não há motivo para alarmismo – pelo menos, por enquanto.

“Embora a América do Sul represente algo em torno de 10% das vendas do grupo, a VW atualmente depende muito do Brasil. Seus veículos têm boa reputação no país, onde as vendas estão em alta, e representam uma grande parte da frota circulante”, pontua o setorista e editor da Deutsche Welle, maior empresa de comunicação alemã, Timothy Rooks. “Essa conjuntura deu e ainda dá à empresa algum tempo. No entanto, o mercado é pequeno para compensar as enormes perdas em outras áreas, e a concorrência chinesa não está muito atrás, pelo contrário, vem avançando”, pondera Rooks.
Cortes da Volks vão atingir outras empresas
Os mais recentes capítulos causam preocupação entre os fornecedores, que não sabem se e em que medida seus negócios serão afetados pela reestruturação da Volkswagen.
“Quando grandes grupos automotivos tomam estas decisões, a cadeia é sempre impactada e é melhor os brasileiros se prepararem para o pior, porque a descontinuação de modelos ou reorganização de plataformas trazem efeitos negativos imediatos. A pressão sobre os preços aumenta”, adverte o CEO da IEE, fornecedora global de sensores automotivos para detecção, assistência ao condutor e recursos de segurança, Paul Schockmel.
“Até agora, não é possível quantificar o impacto específico, mas será necessário ajustar a capacidade produtiva, implementar regime reduzido e cortar postos de trabalho”, prevê Schockmel.
A situação atual da VW lembra a véspera das capitulações da Atari, pioneira dos consoles de videogames; da gigante norte-americana dos filmes Kodak, eclipsada pela revolução da fotografia digital; da Nokia, vitimada pela chegada do iPhone e dos smartphones; da Yahoo, que subestimou a publicidade por visualizações; da Xerox, uma das inventoras do computador pessoal – isso mesmo, do PC – que preferiu se concentrar nas copiadoras; além da Sears, uma das maiores lojas de departamentos do mundo, entre tanta outras grandes empresas que ficaram para trás.
E para os céticos, vale a lembrança de que, quando o banco Lehman Brothers faliu, em setembro de 2008, suas contas tinham mais de US$ 690 bilhões (R$ 3,5 trilhões) em ativos, portanto, 17 vezes mais do que a capitalização de mercado atual da Volkswagen.
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