Como a Fórmula 1 poderia interessar à Volkswagen
Muitos falam do interesse da Volkswagen na Fórmula 1. Mas, em primeiro lugar, é preciso separar o que é Volkswagen-a-Marca, do que é Volkswagen-o-Grupo. Feito isso, podemos analisar sem paixões de que maneira a Fórmula 1 poderia ser interessante para a Volkswagen. Afinal, muitas são as reuniões relatadas, mas o compromisso nunca acontece.
O Grupo Volkswagen reúne várias marcas que estão ou estiveram presentes no automobilismo de competição: a própria Volkswagen e também Porsche, Audi, Lamborghini, Bugatti, Seat, Skoda e Bentley. Dessas, apenas Bugatti, Lamborghini e Porsche já estiveram na Fórmula 1. As duas primeiras fracassaram como equipe e como fornecedoras de motores; só a Porsche vingou.
A Bugatti disputou apenas um GP (França, 1956), largando em 18º e abandonando após 18 voltas. Um fiasco. A Lamborghini disputou apenas seis GPs como equipe (1991). Como fornecedora de motor, em cinco temporadas (1989 a 1993), obteve apenas um pódio. Disputou 80 corridas, mas não se classificou em outras 49. Não por falta de equipes, pois teve várias: Lola, Lotus, Ligier, Venturi, Minardi e Larousse, além da própria Lamborghini.
A Porsche, com equipe e motor próprios, disputou apenas 31 corridas (1958 a 1964) e obteve uma vitória. Somente nos anos 80 (1983 a 1987) a Porsche brilhou na Fórmula 1. Em cinco temporadas foram dois títulos mundiais, dois vices e 25 vitórias em 68 corridas, todas elas com a McLaren. Porém, o dinheiro veio da empresa Techniques d'Avant Garde e, por isso, o motor V6 foi rebatizado de TAG Porsche.
Voltando à Volkswagen. A marca em si não tem nenhum interesse na Fórmula 1. No ano passado, todo o departamento de motorsport foi dissolvido e vários funcionários foram realocados para o que realmente interessa à empresa no momento: desenvolver e baratear baterias e motores para carros elétricos. Pelo menos no curto prazo, a F1 não terá carros totalmente elétricos. Mas a Volkswagen está empenhada em ser mais relevante do que a Tesla neste novo mundo, tanto que vai abrir seis gigafábricas na Europa para ter suas próprias baterias.
Das marcas do grupo que hoje estão mais envolvidas no automobilismo, Audi e Porsche, a F1 atual não acrescentaria nada. Ambas já decidiram que o futuro será totalmente elétrico. Tecnologia híbrida pode interessar a ambas, durante algum tempo, mas nada que justifique investir na Fórmula 1. No dia 3 de março a BBC de Londres divulgou que a Porsche teria interesse em participar da F1 se a categoria adotar motores com combustíveis ecologicamente sustentáveis.
Porém, a F1 é lenta nessa decisão. Somente a partir de 2025 haverá regras totalmente novas na questão dos motores. A Porsche tem enorme interesse no eFuel. Tanto que desenvolve, junto com as empresas Siemens, AME, Enel e Enap e a ExxonMobil, uma forma de introduzir o eFuel em larga escala. Resta saber se F1 não vai perder o timing para conquistar a Porsche, que seria a fornecedora ideal para a Red Bull (a Honda sai no final deste ano).
Voltamos, portanto, à Bugatti e à Lamborghini. Essas duas marcas são o grande problema da Volkswagen. São marcas que fabricam carros de altíssima potência e com motores grandes. Ainda não há tecnologia de motores e baterias que atendam à francesa Bugatti e à italiana Lamborghini a ponto de mantê-las competitivas sem tirar muito da emoção. O Grupo Volkswagen cogita vender ou até fechar as duas marcas.
Portanto, ainda que a Bugatti e a Lamborghini sejam beneficiadas, é possível que a Porsche seja a empresa escolhida para representar o Grupo Volkswagen na Fórmula 1. Primeiro, porque é a única de todas a ter uma história vitoriosa na categoria. Segundo, porque a Porsche já está envolvida no automobilismo de ponta a nível mundial. Ela é, por essência, a marca esportiva do Grupo Volkswagen.
Combustíveis sintéticos, portanto, interessam ao Grupo Volkswagen. O foco é muito claro: é preciso reduzir drasticamente as emissões de carbono. Não exatamente porque as montadoras de automóveis se tornaram as maiores amigas do meio-ambiente, mas porque a União Europeia endureceu demais as regras. As multas e taxas para quem não cumprir as metas de redução de carbono serão altíssimas. A Fórmula 1 deve ter isso como única alternativa para atrair novas marcas, seja como equipes próprias, seja fornecendo motores.
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