CEO do Grupo Volkswagen usa prática perversa e corte de 100 mil empregos vira confronto

Oliver Blume, CEO do Grupo Volkswagen (Divulgação VW)

O Grupo Volkswagen vai reduzir metade de seu enorme portfólio, que contempla 150 linhas das marcas VW, Audi, Porsche Seat, Skoda, Cupra e Lamborghini, dentre outras, enquanto tenta cortar 100 mil postos de trabalhos, só na Alemanha, fechando quatro fábricas (Hanover, Emden, Zwickau e a unidade da Audi em Neckarsulm), até 2030.

A medida, apresentada oficialmente na última quinta-feira (9 de julho) pelo presidente-executivo (CEO) Oliver Blume, durante a reunião do Conselho Fiscal da companhia em Wolfsburg, e rejeitada por 12 votos a sete, propõe um arranjo à nova conjuntura global da indústria automotiva, em que as novas gigantes chinesas vêm engolindo as vendas das velhas montadoras ocidentais com veículos de novas energias (híbridos plug-in, EVs e modelos elétricos de autonomia estendida, NEVs), avançando sobre os antigos modelos com motores a combustão.

Só nos últimos quatro anos, o lucro líquido da companhia caiu de 12,4 bilhões de euros (o equivalente a R$ 72,4 bilhões) para menos de 7 bilhões de euros (R$ 40 bilhões).

“Situação da Volkswagen piorou nos últimos 12 meses”, diz Blume

“A situação piorou muito, nos últimos 12 meses e estamos agindo, agora, justamente para evitar o pior no futuro”, justificou Blume, que enfrenta uma pressão sem precedentes dos acionistas – verdadeiros donos da companhia – para reestruturar o modelo de negócios que os faz ricos, há décadas, mas que agora está seriamente ameaçado.

Na ponta do lápis, as margens de lucro da empresa caíram pela metade, entre 2021 e 2025, enquanto o salário de Blume foi reduzido pela perda de bônus de 10,3 milhões de euros (quase R$ 60,5 milhões) para 7,4 milhões de euros (R$ 43,2 milhões) anuais – é como se ele ganhasse duas vezes sozinho na Mega-Sena, todos os anos.

Na Alemanha, onde os Conselhos Fiscais supervisionam as operações, auditando a gestão do CEO e detendo poder de veto – o que não ocorre no Brasil, em relação ao Conselho de Administração que, por aqui, exerce uma governança monista –, as demissões e o fechamento de fábricas propostos na reestruturação foram rejeitados, mormente pelo bloqueio dos representantes sindicais e pela oposição do governo do Estado. De qualquer forma, a oferta de modelos e versões será reduzida em até 75% e um programa massivo de redução de custos deve economizar 60 bilhões de euros (R$ 350 bilhões), até o final de 2028.

Analistas setoriais avaliam que a barreira colocada, durante a reunião do Conselho Fiscal, impede a Volkswagen de combater, efetivamente, a ameaça da China e as mudanças nas condições de mercado. “Uma reestruturação mais profunda é necessária, mas a falta de detalhes do plano apresentado por Blume sugere que decisões importantes ainda estão sujeitas a negociações”, avalia o diretor de pesquisas automotivas da Bloomberg Intelligence, Michael Dean.

“Se os cortes de empregos não forem implementados com rapidez, as novas marcas chinesas farão uma verdadeira guerra de preços, na Europa, roubando os lucros da VW”, completa o gerente de pesquisas do banco de investimentos suíço UBS, Patrick Hummel.

Volkswagen do Brasil não é afetada pela crise global e vira exemplo

A crise em Wolfsburg reforça indiretamente a posição da subsidiária brasileira, principalmente nos campos da produção e da engenharia de produtos, que terá maior autonomia para compensar as vulnerabilidades européias. Por aqui, os acordos coletivos de trabalho de todas as unidades foram renovados, até 2028, e a vice-liderança do mercado nacional é vista como tábua de salvação para a VW.

Neste cenário, só mesmo uma gestão demente ou pervertida cortaria empregos, ao invés de buscar investimentos regionais estratégicos que garantam estabilidade para sua posição. A impressão que fica é de que, na matriz, Oliver Blume falhou ao apresentar um plano “cheio de ideias, mas muito vago em detalhes sobre como seria executado, o que gera uma reação negativa no mercado de ações”, como aponta o relatório da Bernstein, uma das principais empresas globais de pesquisa e corretagem, emitido logo após a reunião.

“As chances da VW se antecipar a essa onda, ao avanço das novas marcas chinesas é muito pequena e a única saída que a companhia tem para aumentar os lucros e melhorar os resultados é se tornar o mais enxuta possível, na Alemanha, reduzindo os custos variáveis em todos os setores”, acrescenta Patrick Hummel, do banco UBS.

Prática mais pervesa do neoliberalismo: só os trabalhadores perdem

Na prática, Blume recorre à estratégia mais perversa do neoliberalismo para remunerar os acionistas e, o pior, sabendo que esta solução imediatista deixará a VW numa situação capitular, assim que seu mandato terminar e ele seguir a vida, com quase R$ 200 milhões na conta bancária. Não é à toa que sua própria capitulação já é vista como algo que acontecerá antes da que a própria montadora antevê para seu negócio.

Afinal, quem comprou uma ação da Volkswagen por US$ 265 (o equivalente a R$ 1.350), em junho de 2021, e vendeu o mesmo papel por menos de US$ 82 (menos de R$ 420), na semana passada, tem motivos de sobra para estar descrente. “É um plano de reestruturação que, simplesmente, dá as costas para temas como produção e emprego, aumentando a incerteza. Na prática, a estratégia pretendida é ruim para os investidores, péssima para os funcionários e desestimulante para os consumidores”, critica o analista e diretor do Centro de Pesquisa Automotiva (CAR) alemão, Ferdinand Dudenhöffer.

“Os colaboradores não têm culpa pela crise administrativa e tudo que esta gestão conseguiu, até agora, foi criar um clima de profunda incerteza desde o chão de fábrica até as diretorias”, conta a presidente do Comitê de Trabalhadores da Volks, Daniela Cavallo.

CEO desagradou até a família Porsche-Piëch, maior dona das ações

Na reunião da última semana, Blume conseguiu desagradar todos os lados, inclusive da família austro-alemã Porsche-Piëch, que é a maior das “donas” da Volkswagen. Nos últimos três anos, as ações da companhia perderam mais da metade do seu valor e, nos últimos cinco anos, a capitalização de mercado do grupo derreteu de US$ 184,4 bilhões (o equivalente a R$ 945 bilhões) para atuais US$ 40,6 bilhões (R$ 207,3 bilhão), um encolhimento de mais de 77% – hoje, a VW, com todas suas fábricas e serviços financeiros, vale tanto quanto a JBS, uma empresa brasileira de processamento de carnes.

Em Wolfsburg, sede da VW e onde aconteceu a reunião do Conselho Fiscal, operários marcharam contra as demissões que pretendem cortar um de cada quatro postos de trabalho na empresa. “A direção da Volks está prestes a gerar um grande conflito com os trabalhadores alemães”, alerta o líder regional do sindicato IG Metall, o maior da Alemanha, para a Baixa Saxônia, Thorsten Groeger. Vale lembrar que, em dezembro de 2024, greves paralisaram a produção alemã, mas existe, hoje, um acordo para que não ocorram interrupções em troca da manutenção dos empregos.

Ociosidade das fábricas pode chegar a 58% no fim da década

O impasse se dá porque o Conselho Fiscal do Grupo Volkswagen inclui representantes das famílias proprietárias, acionistas, sindicatos e do governo do Estado da Baixa Saxônia, uma estrutura de poder compartilhada que complica a tomada de decisões. Blume está, hoje, caminhando na corda-bamba. Dados da Mobility Global, que deixou de ser uma divisão da S&P Global para se tornar uma consultoria independente, estimam que a ociosidade atual de 19% das fábricas alemãs subirá para 27%, até o final desta década — em Zwickau, uma das plantas mais ameaçadas de fechamento, a ociosidade vai subir de 12% para 58%.

Blume, que começou como estagiário na Audi, alcançou os píncaros da glória executiva dentro do grupo prometendo um ambiente de solidariedade e cooperação. Agora, quer rifar dezenas de milhares de pais e mães de família para reaver seus bônus por desempenho. A grande questão é se, caída a máscara, ele seguirá como o escolhido da família Porsche-Piëch para as delicadíssimas negociações que se avizinham.


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