Como a China está se livrando do carvão em 20 milhões de carregadores de EVs
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Nas ruas de Pequim, Xangai e Hangzhou, a presença de veículos elétricos é onipresente. Durante minha recente viagem técnica à China, a convite da Geely Auto, descobri que a China não apenas construiu a maior rede de carregadores do mundo — 20 milhões de pontos até maio de 2026 — como está ativamente descarbonizando a energia que alimenta esses carregadores.
No Brasil, ainda se fala muito sobre o carvão que alimenta os EVs chineses — uma realidade incômoda, mas que deixou de ser novidade —, mas quase nada se fala sobre como o país está se livrando dele.
A China construiu a maior rede de carregamento de veículos elétricos do mundo, um feito de engenharia e planejamento urbano que suporta uma frota de mais de 40 milhões de Veículos de Nova Energia (NEVs), ou seja, os 100% elétricos e os híbridos plugáveis. Mas o verdadeiro desafio — e a verdadeira inovação — não reside apenas na quantidade de carregadores, e sim na qualidade da energia que os alimenta.
A pergunta que pesquisadores e especialistas fazem agora não é mais “os EVs chineses são realmente limpos?”, mas sim “como a China está acelerando a transição para uma rede de carregamento 100% renovável?”.
A escala monumental da infraestrutura de recarga
Os números da infraestrutura chinesa são difíceis de dimensionar para quem observa de fora. Até o final de 2025, a China havia instalado impressionantes 20,092 milhões de pontos de carregamento, englobando tanto instalações públicas quanto privadas [1]. Para colocar isso em perspectiva, o país instalou 1 milhão de novos carregadores apenas no ano de 2025.
Como tudo na China, essa rede não foi construída da noite para o dia. Levou 13 anos para a China atingir seu primeiro milhão de carregadores, mas a aceleração recente tem sido exponencial. A infraestrutura é composta majoritariamente por carregadores de corrente alternada (AC) para uso residencial e noturno, complementada por uma rede crescente de estações de corrente contínua (DC) ultrarrápidas ao longo das rodovias e em centros urbanos densos [2].
O custo do carregamento reflete uma política de incentivo ao uso racional da rede. O carregamento residencial noturno é extremamente acessível, custando entre 0,5 e 1,5 yuans por kWh (aproximadamente R$ 0,38 a R$ 1,13/kWh). Nas estações públicas, o valor sobe para 1,5 a 2,5 yuans por kWh (R$ 1,13 a R$ 1,88/kWh), enquanto os carregadores ultrarrápidos podem cobrar até 4,0 yuans por kWh (R$ 3,00/kWh).
Essa estrutura tarifária encoraja os proprietários a carregarem seus veículos em casa durante os horários de menor demanda da rede elétrica — exatamente quando há mais energia renovável disponível.
Para contextualizar a escala dessa infraestrutura, a China possui 20,092 milhões de pontos de carregamento em maio de 2026. Em comparação, o Brasil, segundo dados da ABVE (Associação Brasileira do Veículo Elétrico), possui apenas 21.061 eletropostos no mesmo período, sendo 14.582 de corrente alternada (AC) e 6.479 de corrente contínua (DC) [1]. A diferença de escala é colossal: a China possui aproximadamente 1.000 vezes mais carregadores que o Brasil.
Essa disparidade ilustra não apenas o tamanho da frota chinesa de NEVs, mas também a magnitude do desafio de descarbonização que o país asiático se propôs enfrentar. Para alimentar 20 milhões de carregadores com energia limpa, a China precisava de uma estratégia de renováveis em escala sem precedentes.
Políticas de compra e o ecossistema urbano
A adoção massiva de NEVs na China não foi impulsionada apenas por subsídios financeiros, mas por políticas urbanas rigorosas. Em megacidades como Pequim, Xangai e Hangzhou, obter uma placa para um carro a combustão tradicional envolve sistemas de loteria ou leilões caríssimos, com taxas de sucesso frequentemente inferiores a 1%.
Em contraste, compradores de carros elétricos e híbridos plugáveis recebem placas verdes (que os identificam visualmente) de forma muito mais rápida e barata. Além disso, esses veículos são frequentemente isentos de rodízios municipais e restrições de circulação em dias de alta poluição.
Essa política de “cenoura e chicote” adotada pelo governo socialista chinês tornou a compra de um elétrico ou híbrido plug-in a única opção viável para milhões de residentes urbanos — e criou a demanda massiva que justificou o investimento em 20 milhões de carregadores.
O paradoxo do carvão está sendo combatido
Apesar do sucesso na adoção de veículos e na construção de infraestrutura, a descarbonização automotiva chinesa enfrenta um paradoxo fundamental: a matriz energética do país ainda é fortemente dependente de combustíveis fósseis.
Em 2025, o carvão foi responsável por cerca de 53% a 57,8% de toda a eletricidade gerada na China [3]. Isso significa que, na prática, mais da metade da energia que move a frota “limpa” do país tem origem em uma das fontes mais intensivas em carbono disponíveis. Estudos acadêmicos indicam que, sem um gerenciamento inteligente de recarga, a adoção massiva de EVs poderia, paradoxalmente, aumentar o consumo de carvão no setor elétrico em cerca de 3% [4].
Aqui está o ponto crucial que muda a narrativa: a China não está aceitando passivamente o paradoxo do carvão como destino inevitável. O país está ativamente descarbonizando sua rede de geração de energia.
A dependência do carvão está em queda. O ano de 2025 marcou um ponto de inflexão histórico: foi o primeiro ano em uma década no qual a geração de energia termelétrica baseada em combustíveis fósseis registrou uma queda anual na China [4].
A resposta do governo chinês é uma expansão agressiva de fontes renováveis. A China está adicionando mais capacidade de energia solar e eólica à sua rede do que qualquer outra economia global. Em novembro de 2025, outro marco significativo foi atingido: a geração de energia eólica e solar atendeu a todo o crescimento da demanda elétrica do país, empurrando a participação do carvão para 53% [5].
Isso significa que, pela primeira vez, o crescimento da demanda por eletricidade — impulsionado em grande parte pelos 20 milhões de carregadores de EVs — está sendo atendido exclusivamente por energia renovável. Cada novo carregador instalado, cada nova frota de EVs, está sendo alimentada por energia solar e eólica, não por carvão.
Smart Charging e Vehicle-to-Grid: a inteligência por trás da descarbonização
Mas a história vai além de simplesmente adicionar painéis solares. A China está implementando tecnologias sofisticadas para otimizar o uso dessa energia renovável.
Sistemas de carregamento inteligente (Smart Charging) utilizam algoritmos avançados para prever os picos de demanda da rede elétrica e os horários de maior geração de energia renovável. O sistema decide automaticamente o melhor momento para carregar o veículo, priorizando horários em que a energia é mais limpa e barata [6].
Ainda mais inovador é o conceito de Vehicle-to-Grid (V2G), nos quais os EVs não apenas consomem energia, mas também devolvem energia à rede quando necessário. Imagine 40 milhões de baterias de EVs funcionando como um sistema de armazenamento distribuído de energia. Quando há excesso de geração solar ao meio-dia, os carros carregam. À noite, quando a demanda sobe e a solar cai, os carros devolvem energia à rede. Essa tecnologia está sendo pilotada em cidades chinesas e tem o potencial de transformar completamente a estabilidade da rede elétrica.
O 15º Plano Quinquenal: metas ambiciosas
O 15º Plano Quinquenal da China (2026-2030) estabelece metas ambiciosas para essa transição. O plano visa reduzir a intensidade de carbono (emissões de CO2 por unidade de PIB) em 17% até 2030, preparando o terreno para o pico de emissões do país [7]. O documento prevê a criação de cerca de 100 “parques zero-carbono” e 10.000 km de corredores de transporte totalmente descarbonizados.
Mais significativo ainda: pela primeira vez desde 2009, os veículos elétricos foram removidos da lista oficial de “indústrias estratégicas” do país. Como dissemos no artigo anterior, isso não é um recuo; é o oposto.
Significa que o governo chinês considera a indústria madura o suficiente para competir em condições de mercado, sem necessidade de suporte financeiro direto. A eletrificação não é mais um objetivo de política industrial, pois já se tornou uma realidade de mercado.
O que a China está conquistando: a matriz energética brasileira como referência
Ao observar a estratégia chinesa de descarbonização dos carregadores, fica evidente que o país enfrenta um desafio que o Brasil já resolveu: uma matriz energética limpa. A composição da matriz brasileira revela uma realidade radicalmente diferente.
Enquanto a China depende 53% de carvão, o Brasil possui apenas 4,5% de carvão mineral em sua matriz. Em contraste, 36% da energia brasileira vem de fontes renováveis diversas, incluindo 16,7% de derivados da cana-de-açúcar, 11,6% de hidroelétrica, 5,1% de eólica e solar, e 8,1% de outras renováveis [8]. Essa composição coloca o Brasil com um uso de fontes renováveis 36% superior à média mundial.
A ironia é que a China, líder em eletrificação de veículos em escala massiva (com 20 milhões de carregadores), está gastando bilhões para alcançar o que o Brasil já possui naturalmente: uma matriz energética limpa.
O Brasil, com apenas 21 mil carregadores, pode aproveitar essa vantagem competitiva de forma muito mais agressiva. No entanto, esse tema — a oportunidade do Brasil em descarbonização automotiva em comparação com a China — será tratado em uma fase mais avançada desta pesquisa.
Conclusão: a verdadeira batalha está na rede elétrica
A conclusão que trago da China é que a eletrificação da frota é apenas a primeira metade da equação. A infraestrutura de 20 milhões de carregadores está pronta. A tecnologia de smart charging e V2G está sendo implementada.
O verdadeiro desafio da próxima década para o gigante asiático não é mais convencer seus cidadãos a comprarem carros elétricos. É garantir que a energia que flui para suas baterias venha do sol, do vento e da água, e não das minas de carvão. Os dados de 2025 sugerem que a China tem tudo para vencer essa batalha.
Nota do Autor: segundo de uma série de quatro artigos sobre a descarbonização na China.
Referências
[1] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DO VEÍCULO ELÉTRICO (ABVE). ABVE Data: BI Eletropostos. Disponível em: https://abve.org.br/abve-data/bi-eletropostos/. Acesso em: maio 2026.
[2] PEOPLE’S DAILY. China keeps upgrading world’s largest EV charging network. Beijing: People’s Daily, 10 fev. 2026.
[3] INSIDEEVS.China’s EV Charging Network Expansion Hit Warp Speed In 2025. InsideEVs, 22 jan. 2026.
[4] AMERICAN ENERGY ALLIANCE.Behind The Green Facade, Coal Powers China. Washington, DC: AEA, 10 fev. 2026.
[5] ZHAO, J. et al.Electric vehicle charging in China’s power system: Energy, economic and environmental trade-offs and policy implications. Applied Energy, v. 173, p. 1-14, 2016.
[6] REUTERS.Renewables push China’s fossil-fuelled power into first annual drop in 10 years. Reuters, 18 jan. 2026.
[7] CENTRE FOR RESEARCH ON ENERGY AND CLEAN AIR (CREA).China snapshot 2025-12. Helsinki: CREA, dez. 2025.
[8] CARBON BRIEF.Q&A: What does China’s 15th ‘five-year plan’ mean for climate change?. London: Carbon Brief, 6 mar. 2026.
[9] PETROBRAS. Matriz Energética: O que é e o que estamos fazendo. Disponível em: https://nossaenergia.petrobras.com.br/w/transicao-energetica/matriz-energetica-o-que-e-e-o-que-estamos-fazendo. Acesso em: maio 2026.
[10] BEN (Balanço Energético Nacional).Uso de fontes renováveis no Brasil. Ministério de Minas e Energia, 2026.
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