Sainz: desafiar Leclerc ou esquentar lugar para Schumacher?

Sainz, nos primeiros testes de 2021, com a Ferrari.

Ninguém pode acusar Carlos Sainz Jr. de não ter personalidade. Filho de um dos maiores pilotos de rali de todos os tempos, o espanhol certamente teria caminho mais direto para uma equipe competitiva se escolhesse a mesma categoria do pai. Mas, desde muito jovem, Sainz Jr. tinha como meta correr de monopostos, e não desafiar terrenos irregulares na terra, no gelo ou na areia. O pai pode ser seu herói, mas o ídolo do espanhol de 26 anos sempre foi Fernando Alonso.

Chegar à Ferrari – e concretizar o sonho de criança de nove entre dez aspirantes a piloto – foi o capítulo mais recente de uma carreira marcada por rupturas. Sainz estreou na Fórmula 1 como integrante da família Red Bull, pela Toro Rosso, correndo ao lado de Max Verstappen. Não é fácil dividir equipe com um dos mais promissores pilotos de seu tempo, e Sainz terminou o ano mais de trinta pontos atrás do holandês. No ano seguinte, com a promoção de Verstappen para a Red Bull, o espanhol passou a dividir a equipe com o russo Daniil Kvyat, que se manteve ao seu lado por duas temporadas.

Mick Schumacher, testando pela Ferrari.
Mick Schumacher, testando pela Ferrari.

No final de 2017, Sainz viveu uma situação esdrúxula, quando acabou emprestado pelo grupo Red Bull para a Renault, em um arranjo que envolvia o fornecimento de motores Honda para a Toro Rosso e de motores Renault para a McLaren. O espanhol permaneceu um ano na Renault, onde teve desempenho discreto, ficando atrás do companheiro Nico Hulkenberg. Na segunda metade de 2018, com o anúncio de que Daniel Ricciardo ocuparia seu lugar na Renault, Sainz parecia escanteado. No entanto, a saída do ídolo Alonso abriu caminho para Sainz na McLaren, onde passou as temporadas de 2019 e 2020.

Os anos de McLaren foram a melhor oportunidade para o espanhol mostrar seu valor. Desafiado pelo jovem Lando Norris, Sainz parecia sempre mais lento que o companheiro de equipe nos treinos, mas sua experiência se fazia valer e, nas corridas, dominou o colega sem piedade em 2019, marcando quase o dobro de pontos do inglês e conquistando seu primeiro pódio, no GP do Brasil, após uma punição a Lewis Hamilton. 

No ano passado, Sainz conquistou outro pódio, no improvável GP da Itália, vencido por Pierre Gasly. Mais significativo e dramático que o primeiro, o pódio em Monza foi a coroação de uma pilotagem agressiva e madura. Sainz poderia inclusive ter vencido aquela corrida, e ser anunciado como o sucessor de Sebastian Vettel na Ferrari não pareceu nenhum absurdo.

Sainz, em Maranello, janeiro de 2021.
Sainz, em Maranello, janeiro de 2021.

A Ferrari viveu uma de suas piores temporadas em 2020, terminando o Mundial de Construtores em sexto lugar. Cerrar fileiras com o time de Maranello pode soar mais como castigo do que como prêmio neste momento, mas nenhum piloto na situação de Sainz recusaria o convite. Trata-se da equipe mais mítica e que mais recebe dinheiro da categoria. Tem condições de evoluir de um ano para outro a ponto de disputar o título? Provavelmente, não. Mas, com dinheiro e estrutura, alguma evolução deve demonstrar. Sainz encontra-se, agora, na posição de desafiante. O “dono” do time é Charles Leclerc, a grande aposta para o futuro da Ferrari. Sainz tem bem menos a perder que o companheiro.

O anúncio de Mick Schumacher na Haas, fazendo sua estreia na categoria em uma equipe próxima da Ferrari, aparentemente coloca pressão sobre Sainz. Em diversos fóruns virtuais, a ideia de que o espanhol está apenas “esquentando o lugar” para o filho de Michael é repetida como mantra por fãs e detratores da Ferrari. Faz sentido pensar que o caminho natural de Mick seja em direção à Ferrari, mas a consolidação desse plano pode não ser tão suave assim.

Filhos e parentes de ex-pilotos costumam ser muito bem tratados até chegar à Fórmula 1. Mais dinheiro que seus colegas – e muitas vezes até que seus pais, no passado – garante as melhores equipes e as melhores estruturas nas categorias de base. Chegando à Fórmula 1, no entanto, essa primazia nem sempre continua forjando resultados. 

Mick Schumacher, em Maranello.
Mick Schumacher, em Maranello.

Mick Schumacher pode até ser uma sombra sobre Carlos Sainz, mas antes de ameaçar o colega da Ferrari, vai precisar se haver com seus próprios resultados na Haas. Terá como companheiro o russo Nikita Mazepin, que está lá também por causa do pai, com a diferença que o pai de Mick foi um dos maiores pilotos de todos os tempos, e o de Nikita é só um milionário russo de trajetória suspeita. E é justamente no que significa ser filho de Michael Schumacher que está a maior pressão sobre Mick. A sombra que Mick possa fazer sobre Sainz é abissalmente menor do que a sombra do pai sobre si mesmo. Olhando para o lado e vendo Leclerc ou para a Haas e vendo Mick, Sainz é franco atirador. Costumam ser perigosos esses personagens.

 


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