Lula sob pressão da Anfavea, do G20 e da urgência climática
A Anfavea quer que Lula – ou o governo dele, tanto faz – aumente para 35% os impostos para veículos elétricos e híbridos importados. O pedido da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores vem em péssima hora.
Lula está assumindo a presidência do G20 (grupo que reúne as maiores economias do mundo) num momento especial, em que a crise do clima resulta em catástrofes em várias partes do planeta, inclusive no Brasil, como vimos nas inundações no Rio Grande do Sul.
António Guterres, secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas) fez um dramático apelo aos líderes do G20 para que barrem de uma vez por todas a crise climática, que está “saindo fora de controle”.
"A crise climática está piorando dramaticamente, mas a resposta coletiva carece de ambição, credibilidade e urgência", disse Guterres em um discurso em Nova Délhi, na Índia, na cúpula do G20.

Guterres pede que os países desenvolvidos zerem as emissões líquidas de carbono o mais próximo possível de 2040, e as economias emergentes o mais próximo possível de 2050, propondo uma eliminação progressiva do carvão até 2030 nos países da OCDE e 2040 em todos os outros.
Enquanto isso, no Brasil, a Anfavea – que apenas reverbera a posição da maioria das montadoras – tenta retardar ao máximo a expansão do mercado de carros elétricos. As razões são econômicas, pois as montadoras chinesas (especialmente GWM e BYD) estão mexendo na estrutura de preços das montadoras tradicionais.
A Anfavea tem seus motivos econômicos e eles não podem ser desprezados, mas o momento exige motivos ecológicos. Ou seja: se o governo vai taxar carros importados com novas tecnologias, isso tem que ser baseado na emissão de CO2 durante seu uso e não porque são veículos que vêm da China, da Tailândia etc.
Não tem cabimento taxar carros elétricos, que não emitem carbono, justamente no momento em que três poderosas montadoras – Stellantis, GM e Volkswagen – já têm planos de produzir localmente veículos elétricos a bateria. O jogo não pode começar só quando elas decidirem participar; há outros jogadores.
“Ah, mas o ciclo do poço à roda dos carros elétricos chineses e europeus não zera as emissões”, dirão alguns. E daí? Isso é problema para a China e a Europa resolverem. O Brasil tem que resolver o seu problema, pois aqui a matriz energética é limpa. Apenas não é usada.
A China e a Europa que façam suas lições de casa; e acredito que farão, pois o desenvolvimento das baterias está apenas começando. Já há desenvolvimento, na própria China, de baterias de sódio, que serão muito mais abundantes, baratas e ecológicas do que as baterias de lítio e outros minerais.
A forma mais eficiente de não fazer nada sem se sentir culpado é jogar o problema para outro. “Não quero ter uma atitude ecológica porque a China e a Europa não têm.”
Atualmente o imposto para carro elétrico importado é 0%, enquanto os híbridos pagam de 2% a 4%, dependendo da eficiência energética. A Anfavea pede uma previsibilidade para os próximos anos, argumentando que assim será mais fácil convencer as matrizes a produzir carros elétricos no Brasil.
Ora, segundo dados da própria Anfavea, este ano (Jan-Ago) foram licenciados no Brasil 1.347.378 veículos leves (automóveis de passeio e comerciais como picapes vans e furgões). Desse total, apenas 2,5% foram eletrificados, sendo 43.167 híbridos (2,1%) e 5.873 elétricos (0,4%).
Em agosto, dos 3.885 carros híbridos vendidos, 2.479 foram fabricados no Brasil, portanto apenas 1.406 (ou 36%) vieram importados. Considerando esse percentual, cerca de 16.000 carros híbridos foram importados este ano. Portanto, estamos falando apenas de 21.873 carros contra 1.325.505. Iso significa a miséria de 1,65%.
No entanto, em sua live do dia 6 de setembro, o presidente da Anfavea, Márcio de Lima Leite, disse: “Precisamos urgentemente aumentar nossa competitividade para exportar, ou perderemos ainda mais terreno em nossos principais destinos, não só para a China, mas para outros países emergentes da Ásia, como Índia, Tailândia e Indonésia”.
O motivo desse alarme foi a rasteira que a China passou no Brasil: “Até 2021, o Brasil era o país que mais exportava para os países vizinhos. No ano passado a China tomou a dianteira, com 21,2% de presença, ante 19,4% do Brasil”.
“O que mais nos preocupa é a perda de participação dos produtos brasileiros nos mercados da América Latina”, disse o presidente da Anfavea.
Mas se o problema é a exportação, não há nenhuma razão para taxar em 35% os carros elétricos a bateria, que representam apenas 0,4% do total e estão fazendo o trabalho de abrir mercado para a própria indústria nacional usufruir no futuro. A indústria brasileira é que precisa ter carros elétricos e híbridos com maior velocidade; não basta proteger o mercado local.
Se é assim, por que não taxar apenas os carros híbridos? Infelizmente, neste jogo de montadoras, G20, Brasil, China, Europa e Estados Unidos, a urgência climática continua perdendo feio para os fatores econômicos de dominação de mercados.
Agora a bola está com Lula e o G20. Para o bem do planeta, tomara que a urgência climática realmente seja destacada entre os líderes, que o agronegócio também seja responsabilizado por sua parte (pois emite mais CO2 na atmosfera do que a indústria de transportes) e que os brasileiros não sejam esfolados caso queiram rodar de carro elétrico ou mesmo híbrido.
A Anfavea está certíssima quando pede maior competitividade, resta saber quão rápida será a resposta das montadoras para reagir localmente não apenas ao avanço das marcas chinesas, mas principalmente ao avanço dos desastres ambientais, que são cada vez mais fortes, mais previsíveis e mais frequentes.
A sorte está lançada. Com a palavra, Lula e os países do G20.
Descubra mais sobre Guia do Carro
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
