Flávio Silveira: Tera é o “Polão” (SUV fake) que eu dispenso. Viva o Polo!

Volkwagen Tera Comfort

Depois do “Argão” (Fiat Pulse) e do “Sanderão” (Renault Kardian), entre outros “hatch-SUVs”, agora temos o Volkswagen Tera, que seria um “Polão”. Quer dizer, outro, porque já tínhamos o Nivus (mistura do Polo com T-Cross, a beleza das plataformas modulares). Ele quer ser digno sucessor de Gol e Fusca, ambos retratados em adesivos em um easter egg no vidro traseiro.

Então, para encarar o filão de mercado de Pulse e kardian, o Tera é mais uma variação sobre o mesmo tema: este quase o único tema do mercado, pois todo mundo só quer saber deles, os SUVs. Mesmo quando não são SUVs.

E boa parte deles não é. Toyota Corolla Cross e Honda HR-V não são SUVs, tecnicamente, segundo critérios do Inmetro. Até visualmente, o primeiro é tipo uma mistura de SUV e perua – enquanto o segundo eu até chamaria, sim, de SUV (e até mais que outros classificados como tal, nesta acepção mais recente do termo.

Volkwagen Tera Comfort
Volkwagen Tera Comfort

De fato, as linhas que separam a ampla variedade de carrocerias e categorias do mercado hoje são bastante tênues, e, no mundo da fantasia do marketing e na imaginação do consumidor, tudo é SUV.

O Volkswagen Nivus,por exemplo, é tratado como um SUV, ou SUV-cupê, compacto. Mas na realidade não tem quase nada de SUV, e está muito mais para um “hatch-SUV-cupê”.

Em 2015, o “SUV” Dodge Journey e o "crossover" Fiat Freemont – ou o contrário? – eram quase exatamente o mesmo carro. Pouco depois, o mercado brasileiro acabou “desistindo” de vez do termo crossover (norte-americanos ainda respeitam mais essa distinção).

Mas divago. Voltando ao “Polão”, ou Tera, ele segue a fórmula de Pulse e Kardian, e como eles, não é bem um SUV. São todos crossovers, que é termo correto para carros que misturam formas e conceitos. Testei por uma semana a versão Comfort, de cerca de R$ 130 mil.

Como Kardian e Pulse, o Tera é um hatch com elementos de SUV. Lembra, de certo modo, o primeiro Mercedes GLA, um hatch “bombadão”, onde não se tem a sensação de estar mais alto ao dirigir nem formas características de SUV (o Renegade seria o exemplo oposto).

Volkwagen Tera Comfort
Volkwagen Tera Comfort

Na realidade, um dos primeiros crossovers nacionais foram carros como a perua-SUV Palio Weekend e o Volkswagen CrossFox – um hatch que tinha estepe pendurado na tampa traseira e suspensões que garantiam maior altura do solo para aventuras leves.

Tal fórmula evoluiu ao longo dos anos: o nada prático estepe exposto saiu de moda, mas a maior altura do solo (são 17,8 cm no Tera) e um capô mais elevado, entre outras modificações na dianteira e na traseira (lanternas, faróis, para-choques, etc.), foram feitas para diferenciá-los dos hatches que lhes davam origem. Assim nasceram modelos como o Caoa Chery Tiggo2, o Honda WR-V, o Fiat Pulse e cia.

As vantagens do estilo aventureiro e de superar mais facilmente obstáculos urbanos ou rurais são acompanhadas de desvantagens como menor estabilidade e pioras na aerodinâmica e, consequentemente, no consumo.

No caso do Tera que testei no uso cotidiano, a posição de dirigir é bem pouco elevada, e os bancos dianteiros são um tanto curtos – mas o capô é bem visível, como gostam os fãs de SUVs. E a linha de cintura alta garante estilo, mas diminui a área envidraçada.

ALTOS E BAIXOS

Minhas críticas à fórmula não significam que o Tera seja ruim. Dentro de sua proposta – que o consumidor demanda e as marcas produzem –, e diante da concorrência, é um ótimo “SUV de entrada”, e, como todos eles, tem seus altos e baixos.

Volkwagen Tera Comfort
Volkwagen Tera Comfort

A cabine, por exemplo, é bem montada e atraente, mas o acabamento fica apenas na média do segmento, com uso excessivo de plásticos de menor qualidade na parte alta do painel, bem disfarçado, segundo a escola Fiat, com texturas e tecidos aqui e ali.

O painel de instrumentos tem diferentes visualizações, mas não dá para se ter velocímetro e contagiros “analógicos” ao mesmo tempo. Além disso, a tela é meio monocromática, menos bonita que na versão de topo.

Já a tela do sistema multimídia é grande, e “flutuante”, mas falta um botão físico para controlar o volume. Os comandos “touch” do ar-condicionado também são ruins – melhor usar a tela multimídia.

Com o mesmo entre-eixos do Polo (Nivus e T-Cross são mais alongados), o espaço interno é bem limitado, e o motorista fica meio apertado entre o painel da porta, que avança muito, e o apoio de braço (que bate no freio de mão, dependendo do ajuste).

No banco traseiro, o espaço também é bastante limitado, com a desvantagem extra do assento muito inclinado e “afundado” (meus filhos, de 7 e 13 anos, reclamaram).

Em relação ao Polo, só o porta-malas é um pouquinho maior (350 litros contra 300), e com a versatilidade de se poder rebater banco para acomodar objetos maiores e formas variadas… como em um hatch.

Volkwagen Tera Comfort
Volkwagen Tera Comfort

Na lista de equipamentos, mais altos e baixos, com incoerências e contradições na tecnologia embarcada: há ACC, mas não um freio de mão eletrônico; há painel digital, mas não um farol automático ou um retrovisor antiofuscante. Minhas prioridades são exatamente o oposto.

Além disso, ele tem navegador e apps nativos, com o Waze embarcado, por exemplo – mas, ao fim de uma semana, concluo que prefiro o Android Auto normal, já que sempre estou com meu telefone e fica mais fácil receber mensagens etc. que no sistema VW Play.

Os altos e baixos também aparecem na mecânica e ao volante. No uso urbano, o motor 1.0 turbo de 116 cv e 170 Nm dá conta do recado, e fiz médias entre 9,5 e 11 km/l com etanol, o que é muito bom.

As suspensões trabalham silenciosamente e a altura extra do solo evita raspadas em valetas e lombadas onde carros mais baixos às vezes pegam – mas, por outro lado, têm uma firmeza que sacrifica o conforto dos ocupantes.

E, apesar do bom motor tricilíndrico, o “lag” nas arrancadas e retomadas é extremamente irritante: as pessoas dão passagem, aí você acelera, mas o pedal do acelerador demora a reagir, a transmissão demora a reagir… Até pensam que você desistiu, mas aí você vai.

Além disso, a direção devia ser mais leve para o uso dentro da cidade, principalmente em manobras. Falando nisso, ao estacionar em vagas mais apertadas, aparece outro problema do câmbio: o creeping exagerado dificulta o controle e exige bom controle do freio.

Volkwagen Tera Comfort
Volkwagen Tera Comfort

Já na estrada, o Tera se mostrou mais problemático. Por conta das formas e da maior altura do solo, é mais suscetível a ventos laterais e apresenta um ruído aerodinâmico, que, na unidade avaliada, dava a impressão de se estar com uma janela aberta.

Como a maioria dos motores de três cilindros, quando você exige muito, ele faz um ruído nada bonito – que, acima de 2.500 rpm (ou 120 km/h em estrada plana), invade a cabine sem nenhum pudor (e o mesmo acontece nas reduzidas – ao descer a serra usando o freio motor, por exemplo).

E não é raro precisar de mais rotações, uma vez que o 1.0 turbo de 116 cv (etanol) e 170 Nm tem que mover um carro que não é muito leve, com quase 1.200 quilos. A aceleração de 0-100 km/h fica na faixa de 12 segundos e as retomadas são lentas (nem quero imaginar como fica na versão 1.0 aspirada, de entrada).

São necessárias constantes reduções de marcha, mesmo nas subidas mais leves, e assim o consumo rodoviário durante o teste, andando a 110/120 km/h, ficou na faixa de 11 km/l com etanol – não exatamente um ponto de destaque.

Onde o VW Tera mais lembra um SUV, porém, é na dinâmica. Outra vez, por ser mais alto, não entra nas curvas com a mesma determinação e equilíbrio dos Volkswagen “baixos”, como seu irmão Polo. Sistemas de direção e freios são muito bons para o uso na estrada, mas a cabine inclina mais do a de um velho e bom hatch.

CONCLUSÃO

No fim, o VW Tera tem estilo e muitas qualidades, sim. Não é belo como o Nivus nem espaçoso como T-Cross, porém é mais barato. E sou um consumidor racional, e não pagaria só pelo “estilo SUV”. Não vejo razão de comprar o “Polão”, não me emocionou.

Volkwagen Tera Comfort
Volkwagen Tera Comfort

Então desço para o Polo: por quase o mesmo preço do Tera Comfort avaliado, tem a versão Highline, com uma lista de equipamentos mais adequada ao meu gosto (incluindo sensor crepuscular e retrovisor eletrocrômico, que o Tera não tem, e perdendo tecnologias que interferem na direção, das quais não sou um grande fã).

Nisso e no resto, considero que as vantagens do Tera em relação ao hatch são ofuscadas pelas desvantagens – principalmente em dinâmica e desempenho.

O Polo, sim, é o verdadeiro sucessor do Gol, barato, confiável, acessível e racional – sabemos que ele nasceu pra ser o novo Gol, mas a VW mudou de planos e o chamou de Polo.

Já disse antes e repito: o Polo é o “novo Gol” perfeito. E o Tera é uma “adaptação” dele à dispensável moda dos SUVs. Desejo vida longa ao hatch, embora não seja este o plano da Volks. Afinal, o consumidor manda – e ele gosta mais de estilo que de substância.


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