GWM, BYD e GAC: tática de marcas confunde o ranking de vendas
Uma das coisas que aprendi fazendo Mestrado na Cásper Líbero e Doutorado na USP é dar o nome certo para as coisas. Mas, no jornalismo e na indústria automotiva, não funciona bem assim. Por isso, eu gostaria de lançar um olhar sobre um fenômeno que está acontecendo com as montadoras chinesas, especialmente GWM, BYD e GAC, pois confunde o ranking de vendas.
Existe uma tática velha e manjada que significa juntar coisas diferentes quando é interessante somar e separar coisas iguais quando é interessante espalhar. Antes de entrar no caso específico das montadoras chinesas, vou falar do exemplo mais cristalino do mundo – e ele se refere ao Reino Unido, ou Grã-Bretanha, ou Inglaterra… Escócia…
Britânicos na F1, mas ingleses na Copa do Mundo
Na Fórmula 1, onde é interessante somar as vitórias, a mídia inglesa não separa ingleses de escoceses. Ou nem sempre separa. Quando só escoceses venciam o campeonato mundial, com cinco títulos e 52 vitórias de Jim Clark e Jackie Stewart num período de 11 anos (1963 a 1973), era mais conveniente somar. Portanto, até hoje temos a Grã-Bretanha como representante do Reino Unido na F1.
Mas, na Copa do Mundo da Fifa, os britânicos simplesmente não existem – passam a ser ingleses, escoceses, galeses e irlandeses. Afinal, assim conseguem ter quatro vagas no Mundial. Mesmo assim, só ganharam uma Copa, do Mundo, a de 1966, disputada na Inglaterra. A Pérfida Albion jamais disse que aquele foi um título “britânico” ou do Reino Unido; foi inglês, that’s it.
No Brasil, GWM é a marca e Haval é o modelo
Agora, voltando aos carros. No caso da GWM, ela não existe como marca na China – é uma montadora que reúne as marcas Haval, Ora, Tank, Poer e Wey. No Brasil, por estratégia de negócio, a GWM se transformou oficialmente em uma marca. Assim, as marcas viraram “linha de produto”. Isso dá uma enorme vantagem no ranking da Fenabrave, por exemplo. O Guia do Carro prefere separar, por questão de padronização.
Afinal, se não juntamos as seis marcas da Stellantis (Fiat, Jeep, Citroën, Ram, Peugeot e Leapmotor), por que devemos juntar as da GWM? Isso também vale para a GAC, que juntou as marcas Aion e Hypetec. E aqui há um componente extra: a própria GAC também é uma marca. Nesse caso, assim como a consultoria automotiva K. Lume, o Guia do Carro separa. De novo: nosso objetivo é ser didático para os consumidores.
Entretanto, não é tão simples. A GWM Brasil argumenta que não existe uma concessionária Haval ou Tank no país; todas são GWM. E que o documento do carro traz o nome GWM como marca e Haval como modelo, além do logotipo GWM estampado no carro. Segundo a montadora chinesa, não existe um logotipo Stellantis nos carros da Fiat ou da Jeep. Portanto, seguindo essa linha, não é errado — especificamente no mercado brasileiro — considerar a GWM como marca e as marchas chinesas como modelos.

Mesmo que o objetivo da GWM e da GAC seja puramente comercial e esteja justificado nos documentos dos carros — pois é mais fácil trabalhar a imagem de uma marca do que a de várias, para quem tem pouco volume –, o fato é que isso confunde o ranking e torna o trabalho de padronização da mídia e das consultorias um tormento.
A Caoa, por exemplo, não conseguiu trazer carros da Omoda porque, segundo a Chery, a Omoda é uma marca separada. Mesmo que a empresa se chame Caoa Chery, a empresa chinesa disse que Chery, naquele caso, era a marca e não o grupo. E hoje temos a Omoda Jaecoo dividindo o mesmo espaço. São apenas uma marca, como diz a Fenabrave? Ou são duas? Imagina chamar um carro de “Omoda Jaecoo Omoda 5” ou de “Omoda Jaecoo Jaecoo 7”.
BYD Song ou Song Pro e Song Plus?
A BYD agora tem também a marca Denza. Elas vão aparecer juntas ou separadas? Por que a mídia diz “GWM Haval” e não diz “BYD Denza”? É uma falta de critério, mas tem a ver também com os algoritmos do Google: quando você coloca no título “GWM Haval H6” as suas chances de aparecer são maiores. Teoricamente. E também porque a Denza deverá ter lojas separadas da BYD.
Há mais um caso referente à BYD. No ranking da Fenabrave – e também em consultorias internacionais como o Focus2Move – o Song é uma coisa só. Song Pro e Song Plus somam as vendas. Não vejo grandes problemas nesse caso, mesmo sendo modelos diferentes. De novo, aqui a Fenabrave junta e a K. Lume separa.

Mas vocês devem se lembrar do Volkswagen Gol. Durante anos, o Gol G4 e o Gol G5 conviveram juntos e lideraram o mercado. Fazia sentido separar? Acho que não. Por isso, no caso dos modelos Song Pro e Song Plus, talvez seja mais apropriado juntar, como faz a Fenabrave. Afinal, embora sejam carrocerias ou gerações diferentes, o carro tem o mesmo nome e o mesmo público.
Mesmo assim, a K. Lume separa e também usa o mesmo critério, por exemplo, para separar o Haval H6 do Haval H6 GT, por ser este último um carro cupê e ter tração integral.
Chery ou Caoa têm mais buscas “isoladas”
Tem mais. Vejamos os casos da Caoa Chery e da Caoa Changan. Consultorias como a K. Lume e a Bright Consulting utilizam Chery como marca e Caoa como montadora. Faz sentido. É como se a Caoa fosse uma mini-Stellantis, ou seja, o chapéu que abriga essas marcas. Sem contar que a Changan ainda tem a marca Avatr para chegar em breve ao Brasil. Então teremos um Caoa Changan Avatr 06, um Caoa Avatr 06 ou um Changan Avatr 06 ou simplesmente um Avatr 06?
Recentemente, um colega jornalista comentou comigo: “Usamos Caoa Chery porque é uma empresa brasileira que está produzindo carros chineses”. Ou seja: o critério do nacionalismo, mas não creio que a Caoa fosse diminuída, perante o público, ao ser considerada a empresa-mãe que dá vida aos carros da marca chinesa. Pelo contrário. Sem a Caoa, nem Chery haveria.

Mas há um critério que muitos ignoram: as buscas no Google. Os nomes Chery ou Caoa, isolados, têm muito mais buscas do que Caoa Chery. Mas o que explode mesmo é Tiggo. Já no caso da GWM, este é o termo que domina as buscas do Google no Brasil, e depois dele vêm Haval e em seguida apenas H6. O termo GWM Haval é o menos buscado, atrás também de Haval H6.
Qualquer que seja o critério preferido por cada empresa, é preciso respeitar. Não significa, entretanto, que a mídia deva seguir todas as regras. Por exemplo: a Audi prefere que sua linha e-tron e a tecnologia quattro sejam escritas assim, toda em “caixa baixa” (letras minúsculas), mas para o leitor é horrível. Lembram do up! da Volkswagen? Ninguém seguiu a regra, pois estragava a leitura, então o carro virou Volkswagen Up. E ponto final.
Nota do Editor: Atualizamos este texto depois de um telefonema da GWM, que reforçou sua argumentação de que aqui no Brasil ela é, sim uma marca.
