Avanço dos veículos elétricos evitou 262 mil mortes prematuras por poluição na China
Híbridos plug-in, EVs e modelos de alcance estendidos (EREVs) devem fechar o ano com 60% de participação no mercado chinês, que é o maior do mundo; OMS estima que poluição veicular mata 4 milhões de pessoas, anualmente, de AVCs, cardiopatias isquêmicas, câncer e infecções pulmonares
Enquanto o Brasil se torna o maior importador de veículos de novas energias (NEVs) da China, a virada de eletromobilidade acaba de revelar, por lá, um lado pouquíssimo comentado em todo mundo ocidental: seus benefícios para a saúde pública. Pesquisadores da Universidade de Wuhan, classificada pelos principais índices universitários globais como uma das 20 melhores instituições de ensino superior do mundo, apontam a substituição de modelos equipados com motores a combustão por veículos elétricos evitou mais de 260 mil mortes prematuras decorrente da poluição do ar, só no ano passado.
“As pessoas não se dão conta, mas a exposição prolongada a poluentes pode causar acidentes vasculares cerebrais (AVCs), doenças cardíacas e respiratórias, câncer de pulmão e infecções respiratórias. Os resultados que obtivemos são, ao mesmo tempo, encorajadores e preocupantes”, afirma o engenheiro pós-doutorado (PhD) em sensoriamento remoto, professor da Faculdade de Geodésia em Wuhan e coautor do estudo “Reduced urban air pollution and mortality from the transition to new energy vehicles in China”, publicado há um mês, Qiangqiang Yuan.
“As emissões veiculares são a maior fonte de poluição atmosférica urbana e precisamos apontar, com clareza, os benefícios ambientais da adoção dos EVs”, pontua Yuan.De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), entre 1,8 milhão e 2,2 milhões de pessoas morrem anualmente, na China, de doenças fortemente associadas a AVCs, cardiopatias isquêmicas, obstrução pulmonar crônica (DPOC), câncer e infecções prematuras. Isso quer dizer que mais da metade dessas mortes ocorrem em indivíduos com 50 anos de idade.
Apenas para o leitor ter uma base para comparação, a OMS indica que, no Brasil, ocorrem 63 mil mortes anuais (35 vezes menos do que na China) relacionada à poluição, impulsionada principalmente pela frota de veículos a combustão, contaminantes industriais e incêndios florestais sazonais. No mundo, são mais de quatro milhões de mortes prematuras, anualmente, com os veículos a combustão liderando as emissões“.
A China expande a adoção de veículos de novas energias (NEVs) como apoio ao desenvolvimento sustentável, mas precisávamos quantificar seus benefícios ambientais, avaliando partículas com diâmetro de 2,5 μm ou menos, além dos níveis de dióxido de nitrogênio e monóxido de carbono. Em 2023, os NEVs levaram a reduções de quase 24% destas partículas de mais de 30% em monóxido de carbono”, detalha o pesquisador.
De acordo com Yuan, a requalificação do ar decorrente da virada da eletromobilidade evitou 262 mil mortes não acidentais, além de 75 mil mortes por todas as causas, respectivamente – os benefícios concentraram-se em metrópoles e megalópoles chinesas.No primeiro semestre deste ano, EVs puros (100% elétricos) aumentaram sua participação e já respondem por 36% do mercado chinês que, não se pode esquecer, é o maior do mundo – em 2025, foram vendidos quase 30,5 milhões de veículos automotores na China, contra 16,4 milhões, nos Estados Unidos, e 4,5 milhões, na Índia. No Brasil, a virada da eletromobilidade segue em ritmo cada vez mais acelerado, com alta de 117%, só no primeiro semestre deste.
Califórnia reduz poluição em 4%
O estudo da Universidade de Wuhan aponta que as reduções em partículas grossas e nos níveis de dióxido de nitrogênio foram baixas, evidenciando disparidades específicas dos poluentes e desigualdades socioeconômicas nos benefícios relacionados aos NEVs.
Os resultados sugerem a necessidade de o governo chinês de acelerar a eletrificação no transporte pesado e, também, em regiões menos desenvolvidas, por meio de subsídios, incentivos fiscais e outros programas para impulsionar a renovação da frota.
Mas os benefícios da virada da eletromobilidade não se limitam à China: “Em toda a Califórnia, a rápida adoção de veículos com emissão zero levou a uma melhoria na qualidade do ar por meio da redução das concentrações de dióxido de nitrogênio. Analisamos medições diárias em cerca de 1.700 áreas residenciais, entre 2019 e 2023, e comparando os dados com o número de registros de EVs, descobrimos, para cada 200 novos veículos com emissão zero em uma área, os níveis de dióxido de nitrogênio caíram até 4%”, afirma o gerente de políticas de transporte do Instituto californiano para o Clima e a Comunidade (CCI), Emmet Hopkins.
Todavia, ele trata o tema com cautela. “Comparados aos compactos, os grandes SUVs e os caminhões pesados emitem muito mais partículas, contribuindo ainda mais negativamente para a poluição do ar. E não podemos esquecer que as políticas que oferecem incentivos para a compra de EVs, neste ponto, são injustas, porque os carros de passeio emitem mais monóxido de carbono, enquanto os veículos comerciais emitem mais óxidos de nitrogênio e material particulado.
A descarbonização completa do setor de transportes demanda um conjunto de ações, que vai de as pessoas caminharem até o trabalho, passando por usarem bicicletas até usarem, exclusivamente, o transporte público, simplesmente deixando de comprar carros”, idealiza Hopkins.
Para o físico atmosférico e professor da Universidade do Piemonte Oriental, Itália, Enrico Ferrero, o estudo chinês comprova que a virada da eletromobilidade é uma peça importante no quebra-cabeças das emissões.
“A pesquisa constatou que as concentrações de óxido de nitrogênio diminuíram, mesmo que modestamente, o que é positivo. A queda foi inferior a 8%, em relação ao cenário sem EVs, e isso se deve ao fato de estes óxidos serem produtos químicos excepcionalmente complexos. Ao contrário do monóxido de carbono e do material particulado, o dióxido de nitrogênio se forma quando um de seus componentes, o óxido nítrico, é emitido pelo escapamento de um modelo com motor a combustão e se mistura com o ozônio, que é um composto nocivo já presente na atmosfera”, pontua o docente.
Pesquisas feitas por ele, na Itália, revelam que uma introdução modesta de EVs traz impactos igualmente menores no meio ambiente, e que uma taxa de substituição substancial, a partir de 50% da frota, é necessária para reduções na concentração de poluentes. “O que descobrimos em medições feitas a uma distância entre 400 e 600 metros das rodovias que circundam Milão, é que, mesmo com taxas de adoção mais baixas, as melhorias na qualidade do ar podem ser bastante significativas durante episódios de poluição intensa”, aponta Ferrero. “Ganhos adicionais ou ainda maiores serão obtidos com a redução das emissões do transporte pesado”, acrescenta, ratificando o apontado pela pesquisa da Universidade de Wuhan.
Embora estudos de modelagem projetassem que os EVs levariam a reduções drásticas nos poluentes provenientes das emissões dos modelos a combustão, faltavam evidências empíricas para comprovar isso. Agora, estudos como os apresentados na China e promovidos em áreas residenciais californianas vêm medindo níveis mais baixos de poluentes no ar à medida que a virada da eletromobilidade se consolida.
O Brasil, onde híbridos leves (sem recarga externa), híbridos plug-in e EVs, além dos micro-híbridos, emplacaram mais de 240 mil unidades só no primeiro semestre deste ano, correspondendo a quase 21% do mercado nacional, só em junho, recebe o estudo como uma ótima notícia. Afinal, mesmo sem políticas ambientais e industriais tão resolutivas quanto as chinesas, os consumidores vêm trocando, mês a mês, automóveis ultrapassados caríssimos por produtos mais modernos, eficientes e competitivos que, comprovadamente, trazem ganhos ambientais.
Descubra mais sobre Guia do Carro
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

