China comprou minas baratas. “Bate na cara de todo mundo”, diz Kalume
Os carros chineses alcançaram 18% de participação no mercado brasileiro em abril, mas tratar isso como “uma invasão” é fazer uma leitura rasa do fenômeno. A opinião é de Milad Kalume Neto, diretor executivo da K.Lume Consultoria, e foi dita durante uma entrevista exclusiva ao canal Guia do Carro no YouTube.
O avanço dos carros chineses no Brasil costuma ser tratado como um fenômeno comercial, quase uma onda repentina. Os números ajudam: participação crescente nas vendas, presença cada vez mais visível nas ruas, modelos competitivos em preço. Só que, para Milad Kalume, um dos principais analistas do setor automotivo no país, essa leitura é superficial.
“Se a gente falar de carros novos, os chineses estão com tudo. Já têm cerca de 18% de participação e crescendo mês a mês. Mas, quando você olha a frota circulante, ainda é algo em torno de 1,2% a 1,3%. É muito pouco para falar em invasão.”
Não é só uma invasão, é mais profundo do que isso
Para o especialista, o impacto ainda não está no tamanho; está na direção. O que está acontecendo, segundo Milad Kalume, é mais profundo. A China não está apenas competindo dentro das regras da indústria automotiva tradicional. Ela está operando com outra lógica. “O automóvel virou software”, disse.
A frase resume uma virada silenciosa e que só agora faz enorme ruído em todo o mundo. Durante décadas, o carro foi definido por motor, mecânica, plataforma. Agora, passa a ser definido por tecnologia, conectividade, arquitetura eletrônica. E nisso, os chineses avançaram mais rápido.
“Hoje você não entende um automóvel sem entender de tecnologia, de software, de programação. Esse é o processo que a China está batendo na cara de todo mundo.”
Milad Kalume Neto lembra que o ponto de virada aconteceu ainda em 2009, quando o país decidiu não disputar espaço no motor a combustão com europeus, japoneses e americanos: “Eles entenderam que não iam competir com motor a combustão. Então direcionaram todo o conhecimento em baterias para veículos. Em 15 anos, dominaram.”
“Eles compraram minas quando o preço era baixo”
A partir daí, vieram escala, controle de cadeia produtiva e um movimento agressivo de garantir matéria-prima no mundo inteiro. “Eles compraram minas quando os preços ainda eram baixos. Fizeram a lição de casa”, disse o consultor. O resultado aparece hoje no produto. Não apenas em elétricos, mas no conjunto da obra.
“Não estamos falando da indústria chinesa de 10 ou 15 anos atrás. Hoje é produto bem acabado, com tecnologia, segurança e conforto — e com baixo custo.”
Segundo Kalume, a indústria tradicional, especialmente em mercados como o Brasil, ainda opera sob outra lógica: ciclos longos, estruturas pesadas, dependência de escala clássica. Esse sistema funcionou muito bem por décadas, mas esse processo resulta em reações e mudanças estruturais mais lentas.
Durante a entrevista, o consultor automotivo também comentou sobre alguns dados do mercado e destacou que o Brasil e a América Latina têm um peso importante na indústria global, por isso a China vai ser cada vez mais agressiva na oferta de carros superiores com preços atraentes para o consumidor. Veja a entrevista completa no link abaixo.
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