Ferrari Luce seria “excomungado” de qualquer jeito (e não é pelo design)

Ferrari Luce: nem a bênção do Papa salvaria o projeto de John Elkhann (Divulgação Ferrari)

Agora que a poeira do lançamento já baixou um pouco, podemos abordar o Ferrari Luce sem falar com o fígado, como tantos já fizeram. Já aviso que não achei o Ferrari Luce nem feio nem bonito; achei estranho, sem dúvida – e por enquanto é isso. Precisaria vê-lo ao vivo para poder julgar melhor, porque só ver por foto não é ter embasamento suficiente.

E posso assegurar que a maioria gigantesca dos tais “influenciadores” que decidiram “cancelar” o Luce, chamando o lançamento de tragédia, desgraça, desastre e afins, viram apenas e tão somente o carro por imagens ou vídeos – mas falar mal dá mais ibope, desde o tempo dos jornais…

Quando se vê um veículo por foto não se tem noção clara de suas proporções, o que, se você nunca viu o carro ao vivo, faz muita diferença em qualquer análise. E no caso do Ferrari Luce isso ficou ainda mais evidente por se tratar de um carro de tamanho muito diferente dos demais da marca.

Ferrari Luce é enorme: tem mais de 5 metros

O Ferrari Luce tem nada menos de 5,02 metros de comprimento por 1,54 metro de altura. Isso significa que ela é do tamanho de um Dodge Dart com a altura de um Fiat Pulse. Como referência, um Ferrari F40 tem 4,4 metros de comprimento por 1,1 metro de altura.

Creio que piorou o quadro o fato de a Ferrari ter divulgado as imagens do Luce apenas em estúdio, sem referências de tamanho de outros objetos, como pessoas, casas, prédios e mesmo outros carros, na rua.

Para mim foi um erro estratégico de relações públicas da marca italiana, pois tirou justamente esse parâmetro de tamanho do carro, que muitos “viram” na mesma proporção de um esportivo clássico de dois lugares.

Eu mesmo só me atentei para o tamanho gigantesco do Ferrari Luce quando vi uma imagem em que o modelo era apresentado ao Papa, o que deu referência de tamanho de uma pessoa ao lado do carro.

Mas, hoje em dia, é preciso ter uma opinião instantânea sobre tudo, mesmo que não se tenha certeza. Mas os “influenciadores” só estão preocupados com seus likes e compartilhamentos, e isso é facilmente alimentado por uma crítica rasa em vez de uma análise séria, sensata e, principalmente, embasada.

De qualquer forma, deixando essa análise basicamente visual e preliminar um pouco de lado, tenho a mais absoluta certeza de que mesmo que o Ferrari Luce fosse o carro mais bonito já criado no universo, seria seria alvo de críticas da mesma forma – apenas pelo fato de ser 100% elétrico.

Nhai, não faz barulho, não é Ferrari. Oras, 1.000 cavalos em um carro de rua, 0 a 100 km/h em 2,5 segundos (seu corpo nem suporta isso, posso te garantir), torque de 100 kgfm disponível instantaneamente? Nha, não faz barulho. Porcaria, tragédia, desastre. Caíram as ações!, berram os que não acompanham nunca o mercado da bolsa de valores.

Agora colocando no mesmo cesto da Luce outros movimentos parecidos como do Jaguar Type 00 e da nova Mercedes-AMG GT (mais de 1.100 cv em um esportivo? Que absurdo…), e também os tais prejuízos anunciados recentemente por várias montadoras tradicionais, me assusta o tamanho do recado que está sendo passado às fabricantes de veículos.

As montadoras sempre foram empresas extremamente conservadoras, em vários aspectos, desde o industrial ao tecnológico (lembra que você já repassou aquele e-mail comparando a indústria de celulares à automotiva? Então…).

Basicamente, uma fábrica de carros é praticamente igual à de um século atrás, ao menos em termos de processos. Os itens tecnológicos que realmente avançaram em veículos foram apenas os ligados à segurança, e isso por força de legislação.

Tom das críticas é puro suco de conservadorismo

Aí, quando finalmente a indústria decide deixar de ser conservadora, entrar de fato no século 21, e, viva!, temos a oportunidade de viver isso, de testemunhar pela primeira vez em mais de 100 anos uma aposta de peito aberto em uma revolução de verdade, e não apenas de discurso, com as empresas investindo pesado em carros elétricos, que são muito melhores e menos poluentes do que os a combustão – digam os “haters” o que quiserem –, a resposta que vem dos compradores é o puro creme do conservadorismo.

E então as fábricas estão descobrindo, sem dúvida tardiamente, que o cliente padrão, mediano, não quer revolução. Quer, no máximo, evolução. Se possível, bem lenta. Beeeem devagarinho. Sem pressa, amigos. E as redes sociais, veja bem, apesar de representarem uma modernidade, só alimentam esse movimento retrógrado.

Diante disso, sabem quando outra vez a indústria automotiva tradicional irá se empenhar para fazer carros melhores, menos poluentes, diferentes do status quo, ou, para usar uma palavra da moda, disruptivos? Não mais nesse século, e talvez nunca mais, meus amigos. A conta dos elétricos já ficou cara demais, e será eternamente apresentada em toda e qualquer reunião de board, seja onde e quando for.

Lembra quando você era criança e achava que hoje, pleno caminho de 2030, teríamos trânsito de carros voadores? Pois é. Não estamos prontos nem para uma Ferrari Luce, que dirá isso. Pode esquecer. Nem seus netos verão isso, e possivelmente nem os netos deles…






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