França investe em “linha de produção” de pilotos

Entrada da Academia FFSA.

Parece longe o tempo em que somente o talento era garantia de bons lugares na F1 e em outras categorias. Nos últimos tempos, o que mais temos visto  são os pilotos vindos das academias das equipes e/ou montadoras. O objetivo é localizar jovens talentos e ir os moldando, nos mais diversos aspectos para tornarem-se um vencedor e prontos para poderem chegar cada vez mais cedo e preparados para a mais alta competição. Cada vez mais o funil passa por este método.

Porém, temos um exemplo de que, a combinação de método com talento não vem de hoje. Vamos mostrar aqui um exemplo que pode ser visto para o apoio e desenvolvimento de novos talentos para o automobilismo: a França.

Alguns poderão até questionar a qualidade. Afinal, o último campeão francês na F1 foi Alain Prost, 28 anos atrás. Mas, abrindo muito mais o panorama, os pilotos gauleses tomaram parte não só da principal categoria do automobilismo, mas em outras tantas.

A história dá conta que o primeiro Grande Prêmio da história (aliás, a origem do termo vem do francês Grand Prix) foi disputado na França, em 1906. Daí, o país sempre esteve bem envolvido com o esporte a motor, indo até a 2ª Guerra, quando o parque industrial estava destruído.

Jabouille, Laffitte, Tambay, Depailler, Jarier, Arnoux; esta era a armada francesa na F1 em 79 e todos tiveram algum apoio.
Jabouille, Laffitte, Tambay, Depailler, Jarier, Arnoux; esta era a armada francesa na F1 em 79 e todos tiveram algum apoio.

Na reconstrução europeia, os franceses foram voltando a participar das corridas. E na década de 60, surgiu a ideia de fazer um programa mais estruturado para jovens pilotos. Já naquela época, a questão financeira pesava e a intenção era permitir que talentos pudessem ter condições de avançar na carreira. A geratriz veio com a criação da Escola de Pilotagem Winfield, em 1964, inicialmente em Magny-Cours.

Inicialmente, houve um pacote de inicial de apoio da BP. Posteriormente, a Shell fechou um acordo em conjunto com a Ford e começou a fomentar a criação de uma categoria-escola, nos moldes da Fórmula Ford inglesa. Em 1970, a escola se mudou para o recém-inaugurado circuito de Paul Ricard. Entretanto, a pressão da estatal petrolífera Elf, juntamente com a Renault e a Federação Francesa, dá origem a um novo programa: o Volant Elf.

Este programa por anos foi o principal esteio de formação de pilotos franceses. Basicamente, se reuniam jovens talentos recém-saídos do kart ou de categorias menores e se fazia uma extensa avaliação de suas qualidades em diversas atividades em pista. Um júri composto por pilotos mais experientes e chefes de equipe (Ken Tyrrell e Jackie Stewart fizeram parte nas edições iniciais). Nesta linha, de 1971 a 1993 passaram pilotos como Patrick Tambay,  René Arnoux, Patrick Depailler, Alain Prost, Didier Pironi, Olivier Grouillard, Éric Bernard, Érik Comas, Jean Alesi e Olivier Panis.

A Elf não só revelava pilotos como também ajudava na carreira deles. Isso ajudou bastante no surgimento de pilotos em diversas categorias, não só na F1. Nos anos 1980, a empresa petrlífera unificou três programas que estavam em Paul Ricard, Magny Cours e Le Mans e fez uma base neste último, batizado “Le Fillière” (As Fileiras).

Exemplos de pilotos formados ao longo dos anos.
Exemplos de pilotos formados ao longo dos anos.

Nos anos 1990, a Elf se juntou à Federação Francesa, e a partir daí, o escopo do centro de formação passou a incluir técnicos e o desenvolvimento de carros. Deu origem à Formula Campus, uma categoria de base. Dela vieram nomes como Stéphane Sarrazin (ex- F-3000, F1 e atualmente na Extreme E).

A partir de 1995, o programa passou a ter apoio governamental formal. E após 2001, com a total desestatização da Elf, a Federação Francesa assumiu o controle. Naquele momento, havia sérias dúvidas se modelo o ainda era válido. Uma grande reestruturação foi feita. No ano seguinte, o kart passou a fazer parte do escopo. E logo depois, a formação de instrutores entrava em pauta. Em 2007, o Centro de Formação da Federação Francesa era reconhecido como o maior e melhor programa de formação para o esporte a motor no mundo.

Uma nova leva de pilotos começou a surgir, sendo o primeiro a chamar a atenção foi Jean-Éric Vergne. Posteriormente, um acordo com a Renault foi fechado e a F4 foi reativada. Então vieram Pierre Gasly, Stoffel Vandoorne e Anthoine Hubert. Recentemente, passaram por lá Victor Martins, Théo Pourchaire e Caio Collet (campeão da F4 francesa em 2018).

O exemplo francês mostra que talento é importante. Mas a criação de uma estrutura de avaliação e preparação, inclusive com apoio governamental, foi fundamental para que se mantivesse uma continuidade ao longo do tempo, não só pensando na F1, mas em todo o ambiente de esporte a motor. Afinal, não se pode depender de espasmos ou voluntarismos pontuais, a iniciativa individual é primordial. Mas se uma ação estruturada é feita, muito pode ser feito.


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