Indústria
Não é só a Volks: BMW vai trocar 8.000 gerentes por IAs após perder R$ 170 bilhões
Plano de reestruturação apresentado a investidores segue mesma linha da Volkswagen com 8.000 demissões e cortes de 20% dos postos de gestão

Oliver Zipse, Chairman da BMW, no Salão de Pequim 2026 (Divulgação)
O leitor que sonha em ter um BMW na garagem pode não saber, mas a marca alemã anda em baixa, tão em baixa que perdeu US$ 33,9 bilhões (o equivalente a R$ 170 bilhões) em capitalização de mercado só nos últimos dez meses. Com o derretimento de metade (-49,3%) do seu valor, não há outra saída e, no final de setembro, a montadora apresentou um plano de reestruturação para seus acionistas — os verdadeiros donos da empresa.
O plano prevê uma redução de 20% nas suas divisões e cargos de gestão, incluindo a demissão de 8.000 postos de trabalhos — o que representa mais de 10% de seu quadro local. No primeiro semestre deste ano, o lucro operacional do grupo caiu -37%, enquanto a receita recuou -8%. Para contensão, a marca bávara ainda fará a transição de ferramentas de IA isoladas para os chamados sistemas de IA agênticos — softwares especializados que podem consolidar informações de múltiplos sistemas, planejar etapas de trabalho e acionar ações subsequentes.
“A IA está achatando a gestão corporativa, mudando a forma como o trabalho é feito e reduzindo camadas que as empresas precisam para realizá-lo”, analisa o gerente de produtos de inteligência artificial da consultoria Deloitte, Gonzalo Muñoz. Na área de compras da BMW, por exemplo, o sistema multi-agente “AIconic” já elabora pedidos, os envia para fornecedores, avalia respostas e aprova casos mais simples.
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“No futuro, esperamos que a IA forneça suporte completo, desde os requisitos técnicos iniciais, passando pelos testes, até o lançamento”, não esconde o presidente-executivo (CEO) do fabricante e presidente (‘chairman’) do Conselho de Administração, Milan Nedeljković.
Ao contrário da Volkswagen, onde o facão vai cortar cabeças principalmente no chão de fábrica, a BMW vai dispensar 65 vice-presidentes sêniores, subordinados diretamente ao seu Conselho de Administração, cerca de 400 gerentes de níveis hierárquicos inferiores e até 100 cargos de alta gerência serão eliminados. “Não temos outra forma de enfrentar a concorrência cada vez mais acirrada dos chineses, que definirá os rumos do setor automotivo nos próximos anos”, reconheceu Nedeljković, afirmando agora o que, em maio, negou quando questionado sobre uma drástica redução de custos.
Pinóquio e lisergia
Como bom Pinóquio, Nedeljković sabe que os investidores são como o Grilo Falante. Se é possível falsear a verdade com os empregados e tapear a empresa vassala, não há como disfarçar para ele (o Grilo) a maior queda no preço das ações da BMW, que atingiram seu ponto mais baixo dos últimos seis anos.
“A empresa estabeleceu uma meta de médio prazo para as margens operacionais, de 3% a 5% até 2028, em seu principal negócio automotivo. Depois de 2030, pretendemos retornar à faixa de 8% a 10%”, disse o chefão — uma tarefa hercúlea, que significa multiplicar por quatro o índice de 2,3% registrado no mais recente balanço contábil. Na prática, ele sabe que é muito mais urbano guilhotinar uma burocracia que engorda enquanto a BMW emagrece, do que fazer como a animália da Volkswagen, que optou por declarar guerra contra os sindicatos.
“Estamos investindo na criação de valor, na competitividade e na segurança do emprego na Alemanha”, defendeu o chefe de produção da BMW, Raymond Wittmann, numa fala que só pode ser classificada como lisérgica. Aqui, nota-se que mesmo o implemento da IA sacrificando o sustento de famílias humanas, para gerar maiores ganhos para um CGC, uma pessoa jurídica, existem formas dissimuladas de vender este tipo de imoralidade para a opinião pública — e neste quesito, estamos diante de verdadeiros ilusionistas.
“A falta de crescimento estrutural e até mesmo um declínio estrutural das montadoras são vistos pelos seus acionistas como um desafio estratégico fundamental. A BMW, com seu anúncio de reestruturação, está explorando opções de crescimento fora do setor automotivo, mas não da maneira como se vê. A área de IA pode transformar o fabricante e afetar, substancialmente, a alocação de capital futura. De qualquer forma, vejo este programa com neutralidade”, diz o principal analista automotivo da UBS, Patrick Hummell.
“Brasil” não foi citado
Já para os clientes brasileiros da marca, o aviso está dado pelo próprio Nedeljković: “Definimos medidas para nos reposicionarmos com um EV de entrada para o mercado europeu, em 2028, um grande SUV – acima do X7 — para os nichos mais altos do mercado norte-americano e maior localização de nossa produção na China — lá, o índice de nacionalização irá a 95% –, onde seremos mais dependentes de parceiros chineses para integração tecnologias e condução autônoma.
A partir da China, enxergamos potencial de exportação para mercados do Sudeste Asiático”, antecipa o executivo, como se declamasse um poema de Goethe. Neste ínterim, o nome “Brasil” não foi citado nem durante o coquetel oferecido para os acionistas no retiro idílico da empresa, Gut Schwaerzenbach, na Baviera.
“O problema é que retornos de 10% para os investidores parecem irreais, mesmo a longo prazo. Considerando os novos concorrentes chineses e o fato de os fabricantes alemães ainda estarem em desenvolvimento, no que tange aos EVs e à condução autônoma, não há como prever o futuro e saber quais crises ou desafios surgirão, depois de 2030”, pondera o consultor e professor da FHM Berlin, Frank Schwope, como uma lucidez que desvela o plano onírico da BMW. “A próxima grande disrupção está logo ali”, lembra Schwope.
Por enquanto, nada foi dito sobre os cerca de 1.300 funcionários brasileiros que trabalham na administração regional, nas fábricas de Araquari (SC) e Manaus (AM). Já na Alemanha, programas de demissão voluntária e indenização por desligamento começaram neste mês. Depois de dois recordes históricos de vendas no Brasil, em 2024 e 2025, a BMW registra queda de 11% neste ano, com 10,9 mil unidades emplacadas entre janeiro e setembro — contra 12.269 unidades, no período anterior. Com a queda, sua fatia do bolo caiu de 0,9% para 0,5%, ficando abaixo da média histórica de 0,75%.
Em nível global, a marca registrou seu recorde comercial em 2023, com 2,55 milhões de veículos, volume que caiu -4% um ano depois e -0,5%, em 2025. Para o fechamento deste ano, a previsão é de nova queda de -4%, devido à contração de mais de 20% nos mercados da China e Ásia-Pacífico.























