Guia do Carro
GAC Motor

Mercado

Gondo pode levantar a Nissan? Só se pensar como chinês e não como japonês

Entenda por que a Nissan perdeu espaço no Brasil e por que Ricardo Gondo precisa adotar a velocidade chinesa para reerguer a marca no país

Sergio Quintanilha

Sergio Quintanilha

06 de agosto de 2026 · 6 min de leitura

Gondo pode levantar a Nissan? Só se pensar como chinês e não como japonês

A japonesa Nissan tem uma história de altos e baixos no Brasil. Ao contrário da Toyota e da Honda, que escolheram um “nível de voo padrão” para atuar no mercado brasileiro, a Nissan parece estar sempre mudando de altitude. Justamente por isso, às vezes precisa fazer longos desvios de rota para escapar do mau tempo.

Agora a Nissan tem um novo comandante: Ricardo Gondo. O nome mostra a ascendência japonesa e isso pode ser bom ou ruim, dependendo do plano de voo. Desde o final da Segunda Guerra Mundial, quando foi vítima de dois massacres atômicos contra a população de Hiroshima e Nagasaki, o Japão tem tido uma economia estável, previsível, de movimentos lentos.

CAOA Chery Tiggo 8 Pro Plug-in Hybrid

Sua maior ousadia foi entrar com carros práticos, econômicos e inovadores no mercado dos Estados Unidos – justamente o país que o financiou após o horror das bombas atômicas. Nesse ambiente, a Nissan, a Mitsubishi, a Toyota e a Honda criaram a indústria de carros mais poderosa do mundo. Submarcas de luxo surgiram só para atender o consumidor estadunidense.

Nissan vendeu 500 mil Leaf elétricos em 10 anos

Infiniti com a Nissan, Acura com a Honda, Lexus com a Toyota. Mesmo nesse ambiente favorável, entretanto, a Toyota levou 10 anos estudando o comportamento dos consumidores norte-americanos antes de entrar com a Lexus. Deu certo. Mas o mundo mudou. Na verdade, foi a própria indústria japonesa que deu um passo importantíssimo para a mudança que hoje apavora todas as montadoras tradicionais.

A Toyota lançou o Prius, o carro híbrido que foi o marco inicial da eletrificação. A Nissan foi mais ousada e transformou o Leaf no primeiro carro elétrico de sucesso mundial. Lançado em 2010, o elétrico da Nissan vendeu meio milhão de unidades em 10 anos. Até mesmo no Brasil o Nissan Leaf foi um divisor de águas – inicialmente fazendo testes com taxistas, que têm a particularidade de analisarem o carro sob o ponto de vista do custo-benefício.

CAOA Chery Tiggo 8 Pro Plug-in Hybrid

Enquanto a Nissan caminhava lentamente com o Leaf no Brasil, tendo também a companhia do Renault Zoe, na época em que a Aliança Renault Nissan era comandada por um brasileiro, Carlos Ghosn, as placas tectônicas do mundo automotivo se moviam silenciosamente. Eram as montadoras chinesas, que preparavam uma surpresa para quem achava que o jogo estava ganho ou, no mínimo, dominado.

A Nissan literalmente dormiu no ponto. Tanto que justamente quando o mercado de elétricos começou a ter alguma importância no Brasil, ela simplesmente… saiu do segmento!

Os números mostram o tamanho desse apagão estratégico. Hoje, no ranking de vendas de veículos elétricos e híbridos no Brasil, com dados de 2022 para cá, a Nissan ocupa um modesto 31º lugar, com apenas 402 unidades vendidas (foram 397 unidades do Leaf, 4 da van Townstar EV e apenas 1 da picape Frontier S MTX4 PHEV). Em um mercado onde 25 marcas já vendem mais de 1.000 eletrificados, a presença da marca japonesa se tornou irrelevante nesse segmento.

Publicidade

O resultado dessa lentidão reflete diretamente no mercado geral: a Nissan caiu e saiu do top 10 das montadoras no Brasil. Ocupa hoje a 12ª posição no ranking, com 43.497 unidades (2,68% de participação), sendo ultrapassada não apenas por rivais tradicionais, mas por novatas chinesas como BYD (4º lugar, com 122.475 vendas e 7,54%) e GWM (10º lugar, com 44.515 vendas e 2,74%), além da CAOA Chery (11º lugar, com 44.367).

Kicks e-Power poderia ter colocado a Nissan no topo

Para dar uma ideia da importância da Nissan, ela é simplesmente a 9ª maior montadora de veículos do mundo, com 3,9% de participação no mercado global. Das chinesas, só a Geely está acima dela (7º lugar). Considerando só os carros, a Nissan é maior do que a Honda. Maior do que a BYD. Maior do que na Changan e a GWM. Maior do que a Renault e Tesla. Muito maior do que a Fiat, que dá um banho de estratégia no Brasil. Agora a Nissan tenta se reerguer globalmente com o modelo N7, um sedã elétrico espetacular que foi criado na China e desenvolvido no Japão.

Tive a oportunidade de andar nesse carro na pista de Yokosuka, no Japão. E também de ver os novos projetos da Nissan no centro de design de Yokohama. Definitivamente, a Nissan tem condições de se manter no top 10 global e também do Brasil. Mas, para o mercado brasileiro, Ricardo Gondo vai precisar se impor.

Ricardo Gondo assume a Nissan dos SUVs Kicks e Kait (Guia do Carro / Imagens originais: Divulgação Nissan)

Uma falha gritante de visão nos últimos anos foi em relação à tecnologia e-Power. A Nissan poderia ter produzido ou trazido para o Brasil o Kicks e-Power, uma solução híbrida perfeita e extremamente eficiente para a transição energética do país. Mas não acreditou no potencial da eletrificação brasileira. Curiosamente, o Kicks e-Power é fabricado no México — ou seja, a tecnologia estava ali ao lado, mas a marca preferiu vacilar.

GAC Aion UT

Além de tudo, a Nissan não pode ficar eternamente dependente do México para abastecer o mercado nacional com cotas e modelos específicos. O Brasil exige volume, agilidade e fabricação/estratégia local forte. Olhando do Japão, pode até parecer que o Brasil estão na mesma região. Só que não. A América do Sul tem vida própria e as reservas de minerais raros voltam a dar uma esperança de crescimento à região.

Portanto, para o engenheiro mecânico Ricardo Gondo — um executivo com ampla experiência nacional e internacional — reerguer a Nissan no Brasil, a resposta não está na cautela excessiva do modelo corporativo tradicional japonês. A Nissan possui no portfólio modelos elétricos e eletrificados modernos no Japão e na China. O que ela precisa agora é agir com a velocidade, a ousadia e a agressividade dos chineses: trazer essas tecnologias para cá, renovar a linha e mostrar a força global que a marca tem.

Ainda não tivemos oportunidade de conversar com Ricardo Gondo nesta sua volta ao setor como presidente da Nissan do Brasil. Ele foi o executivo que impulsionou a Renault, trazendo inclusive o carro elétrico mais barato do Brasil na época (Kwid E-Tech da China) e certamente já tem tudo isso na cabeça.

Compartilhar

Últimas Notícias

Publicidade

Arquivo Histórico

Você também pode gostar

Comentários

Para comentar, acesse o artigo original:

Deixar um comentário