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L’Auto Preferita imortalizou Carsughi como o número 1 do jornalismo automotivo

Nesse texto, o editor do Guia do Carro traz flashes de Carsughi na Quatro Rodas e algumas histórias de resiliência

L’Auto Preferita imortalizou Carsughi como o número 1 do jornalismo automotivo

Claudio Carsughi mudou de país e vive 80 de seus 93 anos no Brasil. Mas nunca deixou sua Itália. Mais do que isso, foi uma ponte jornalística entre a terra que o adotou e a terra que deixou. Porque um país só seria pouco para o grande Carsughi.

Ele foi o número 1 do jornalismo automotivo. Título que lhe concedo à revelia porque certas coisas não são tangíveis. Ou você percebe a grandeza de uma pessoa, ou simplesmente ignora, vira o rosto, muda de página e segue em frente. Trabalhei com Carsughi na Quatro Rodas. Cheguei cerca de um ano antes de sua saída. Apesar dos meus 26 anos, eu trazia uma bagagem de seis anos de jornal diário. Não me interessava muito pelos carros de série, mas sim pelos carros de corrida e pelas corridas de carro.

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Rapidamente Carsughi se tornou Claudio. E foi assim que o tratei sempre que o vídeo. Naquela Quatro Rodas, Claudio logo se tornou minha referência. Afinal, era o único que acompanha a Fórmula 1 . Eu, como Editor de Competição, sempre que possível fui lá falar com ele.

Claudio tinha 56 anos. Parecia mais. Ele me chamava atenção não apenas pela simpatia e educação, mas também pela elegância. Às vezes era exótico, pois estava sempre de gravata e com seu indefectível terno marrom. Às vezes Carsughi não estava na Redação, mas o paletó estava.

Eu o admirava meio de longe, pois ele tinha mais o que fazer do que ficar falando comigo. Era respeitado e admirado pelo baixo clero da Quatro Rodas. Não sei dizer sobre o alto clero. Às vezes, ele era uma espécie de Vittorio Emmanuelle da Redação. Sua palavra era lei.

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Umas duas ou três vezes eu o vi fechando as janelas da redação, irritado, porque o ar-condicionado estava ligado. E dizia, como um mestre: “O ar-condicionado é a maior invenção da história da humanidade”. Principalmente pra quem fica de terno mesmo com calor de 35 graus, eu pensava.

Anos mais tarde, à frente da revista Carro, eu determinei que nenhum jornalista poderia cobrir um salão do Automóvel sem terno e gravada, fosse em São Paulo, em Frankfurt, em Tóquio, em Paris, em Genebra ou em Detroit. Quem cobria era obrigado a trazer uma foto comprobatória. Sem foto não voltaria aos salões.Os editores e jornalistas me odiavam, mas eu aprendi com Cláudio Carsughi que só o terno dava uma certa distinção ao homem. Naquela época, o jornalista tinha que se impor também pela elegância. Mas, tirante isso, o respeito pelo jornal impresso e a paixão pelo rádio, Cláudio Carsughi era o oposto de mim.

Algumas vezes perguntei sobre sua correspondência para a mídia italiana. Ele me contou. Acho que era o La Stampa. Eu gostava do talento humano, ele gostava da engenharia. Teve uma ocasião em que os brasileiros Ayrton Senna e Nelson Piquet barbarizar no GP do Canadá. Especialmente Ayrton, que ganhou a corrida. Gerhard Berger chegou à frente do brasileiro, mas correu com uma punição de tempo por ter queimado a largada.

Segunda-feira, na Redação da Quatro Rodas, encontro o Carsughi e pergunto:

– E aí, Claudio, o que achou da corrida?

Sua resposta me deixou calado e decepcionado. Elegante e racional, disse uma frase que até hoje ecoa na minha cabeça:

– Show da “MécLaren”.

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Assim mesmo: “MécLaren” e não MácLaren como todos dizíamos. Nenhuma palavra sobre Senna, Piquet ou Berger. Ainda insisti:

– Só isso?

Ele disse mais alguma coisa técnica que não me lembro. A partir daí passei a acreditar que era verdade a história que haviam me contado. Que um desavisado narrador, querendo aproveitar a presença de Carsughi na cabine, perguntou a ele que nota dava para um jovem jogador do São Paulo que tinha feito dois ou três gols na preliminar. Carsughi tinha fama de dar notas fracionadas para os jogadores quando comentava os jogos de futebol pela Rádio Jovem Pan. Não dava “nota sete” ou “seis e meio”, como todo mundo. Dava “sete vírgula três” ou “seis vírgula dois”. Nem sei se é verdade. Bem, mas eis que o narrador da preliminar, empolgado, tascou:

– Que nota você dá para Fulano, que fez três gols, Claudio Carsughi?

– Não julgo juniores.

Curto e grosso. Mas nada tornou o jornalista italiano tão famoso ou respeitado como a sua lei, a famosa Lei Carsughi, que foi “decretada” num dia qualquer na redação da revista Quatro Rodas:

– Todos os carros devem ser tratados no masculino, menos a Ferrari.E assim ficou. Na Quatro Rodas era lei. Não sei se ainda é. Mas até hoje muitos jornalistas a seguem. Eu segui, quando virei Editor de Testes. Hoje não sigo mais, e radicalizei depois que estudei desejo em Lacan e Baudrillard no doutorado: todos os carros são masculinos. A feminilização só vem por causa do desejo ou da adjetivação. Mas isso é outra história. Carsughi não apenas amava a Ferrari; ele a desejava. Talvez não para ter uma vida em comum, mas para momentos intensos de prazer. Não era cabível que a “sua” Ferrari, la Macchina, de repente virasse “o Ferrari”. Que se danem as regras e as convenções.

Ferrari é uma Ferrari é uma Ferrari é uma Ferrari diria Claudio Carsughi a Gertrud Stein quando ela veio com aquela história de que “rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa”.

Nada disso, porém, sustenta a tese de que Carsughi foi o jornalista número 1 do jornalismo automotivo. Mas alguém ser o número 1?

Ser o mais técnico? É quesito importante, mas limitado se acabar dele próprio. Carsughu era técnico, mas nunca deixou que o marketing, a birra pessoal ou a busca por audiência fácil interferisse em suas opiniões e análises.

Ser um editor de sucesso? Ajuda, mas não define. Mais importante é a forma com a qual se trafega à frente de um veículo de imprensa. Pouco tempo depois de ter sido demitido da Quatro Rodas – por carta, catzo, por carta! – e ser acolhido pelo querido Josias Silveira na revista Oficina Mecânica, Carsughi percebeu que a operação comercial era pequena demais para abrigar alguém da sua envergadura. Não por arrogância, mas por pragmatismo.

Carsughi se uniu a Ricardo Dilser e Ricardo Caruso, que era seu genro. Os três fundaram a revista Auto & Técnica, pela Editora CCD. Mas, apesar da qualidade dos jornalistas, a revista não se mostrou lucrativa e Carsughi saiu. E, acredite ou não, isso também o diferencia. Num setor em que muitos passam décadas fazendo jornalismo pautados pelas montadoras, Carsughi decidiu que não participaria daquele jogo cruel e de cartas marcadas.

Não deve ter sido fácil. “O Carsughi acabou”, decretaram. Só que não. Livre das amarras do jornalismo automotivo, Claudio Carsughi e sua filha Claudia criaram o Portal Carsughi, que se tornou parceiro de conteúdo do UOL e está lá até hoje. Carsughi foi demitido por carta pela Editora Abril. Depois, ao ver que o setor não colocava dinheiro em nenhum projeto se você não pedisse de joelhos, ele mesmo se demitiu do setor. Mas fez a transição para o digital logo nos primeiros anos da internet.

Como tinha grande facilitar se expressar no rádio, acabou indo trabalhar na televisão a cabo – outra mudança radical de um homem que se reinventava sem dar espetáculo, sem se tornar ele mesmo a própria notícia e sempre estava um degrau acima de qualquer diretor de marketing desavisado. Rádio e televisão dão muito mais nome do que jornal e revista. Se dependesse só dá Quatro Rodas, apesar da importância quase soberana que a revista tinha na época, talvez pouca gente o conhecesse fora do setor.

Lembro de ter encontrado Carsughi algumas vezes em eventos de montadoras, tanto pela Auto & Técnica quanto pelo Portal Carsughi. Ele estava sempre acompanhado de sua filha Claudia, que aos poucos foi aprendendo os caminhos do jornalismo e hoje é uma editora admirável, que não tem o conhecimento técnico do pai, mas tem a mesma forma respeitosa e serena de dar notícias. Dividimos o carro em test drive com Carsughi em algumas raras ocasiões. Depois, passei a dividir com a Cláudia. Aos poucos Claudia foi se tornando a jornalista da família. A idade já pesava para Carsughi quando ele foi desligado da ESPN Brasil. Mas não por incompetência, por falta de qualidade. Mas sim porque algum idiota da objetividade chegou à conclusão que o velho Claudio estava “velho demais”. Um momento triste e injusto com alguém que já passava de 80 anos.

Depois, foi demitido também da Jovem Pan. E aqui sim foi um baque. Deixaram um dos jornalistas mais icônicos do jornalismo esportivo da Jovem Pan na rua da amargura, sem número. Mas não foi o “seu” Tuta, dono da rádio, que demitiu o Carsughi. Foi o seu filho, Tutinha, provando que herdeiros sempre fazem merda – e este se lambuzou na merda. Acabou não só com a razão de viver de um homem que rumava para os 90 anos, mas com aquilo que dava sentido à sua vida. Foi o início do fim – mais uma cortesia desse sistema que usa a pessoa durante décadas, mas é incapaz de criar alguma alternativa útil e digna para quem ainda tem algo a dizer.

Mas, por sorte, em algum momento desse turbilhão de demissões, humilhações e velhices, alguém teve uma ideia brilhante. E esse alguém foi Claudia Carsughi, que criou o Prêmio Carsughi L’Auto Preferita.

– Caça-níquel – acusaram.

– Não dura duas edições – praguejaram.

Mas Claudia lutou e conseguiu. O próprio Carsughi demorou anos para reconhecer que foi esse prêmio que o tornou uma das referências ainda mais agudas do setor. E que seu nome está nele. E por estar nele, a cada ano circula na boca, nos posts, nas matérias de vários jornalistas, além de parar na sala de troféus de muitas montadoras. Claudia contou com a ajuda do jornalista Joka Finardi. É uma honra participar e a cada ano como jurado

Claudio está lá, emprestando seu nome de qualidade para o selo que vira marketing das montadoras. Que vitória! As mesmas montadoras que não sustentaram a ideia da revista, agora usam o nome Carsughi para dizer:

– “Vejam, somos os melhores nessa categoria!”

Este ano o Carsughi não estará no L’Auto Preferita. Bem, o Mestre Carsughi em carne e osso não estará. O pai da Claudia não estará. O nonnino da Gabriela Carsughi não estará lá. Mas o legado de Claudio Carsughi, esse nunca mais sairá de lá. Por que ele foi o número 1 mesmo tendo demissões injustas, mesmo sem criar “conteúdo viral”, mesmo sem ser o Civita das revistas de carros, mesmo tendo sido empresário só porque neoliberalismo destruiu as relações trabalhistas e obrigou todo mundo a ser “empreendedor”.

Claudio Carsughi, o cara que foi no lançamento do Romi-Isetta, o primeiro a testar o Volkswagen Gol, o cara que deu o verniz técnico para a Quatro Rodas e foi demitido por carta, o cara vou a excelência da “MécLaren” facilitando as coisas para Senna ser campeão do mundo, o sujeito que não se submeteu ao jogo publicitário das revistas, que se reinventou na televisão a cabo, que não julgava juniores, que fechava as janelas da redação, que só admitia a italianíssima Ferrari sendo tratada como “mulher”, que — valendo-se de suas fontes em Itália — foi o primeiro a noticiar a morte de Ayrton Senna, furando a Globo., esse cara foi o número 1.

Pegue os outros candidatos a número 1: todos, sem exceção, em algum momento deixaram o lado comercial ocupar boa parte de suas carreiras, suas idas. Mas o nonnino era engenheiro e jor-na-lis-ta.

Quem não concorda deve estar falando “a T-Cross”, “a Cayenne”, talvez até “a Haval” e jamais vai entender que macarrão só se como com um garfo, sem faca e sem colher. E que não julgar juniores não era uma atitude de arrogância, mas sim de respeito com quem estava só começando.

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