Pandemia enfim acabou para a indústria. “Vírus” da China agora são os carros

Vendas de carros chineses seguem em alta no Brasil (Guia do Carro/Studio IA)

Quem olha apenas os números absolutos de abril pode achar que o mercado brasileiro de veículos perdeu ritmo. Afinal, os 236.712 emplacamentos representaram queda de 8,2% em relação a março. Mas existe um detalhe importante nessa conta: abril teve apenas 20 dias úteis – dois a menos que o mês anterior.

Quando a análise passa da fotografia bruta para a média diária, o cenário muda completamente. O mercado registrou 11.836 veículos vendidos por dia, o melhor resultado de 2026 e o desempenho mais forte desde o fim de 2024. Ou seja: a demanda continua aquecida.

Para Milad Kalume Neto, da K.Lume Consultoria, se abril tivesse o mesmo número de dias úteis de março, o resultado provavelmente surpreenderia até as projeções mais otimistas. Na comparação com abril de 2025, o crescimento foi expressivo: 20%.

Números pré-pandemia, finalmente

No acumulado do primeiro quadrimestre, o mercado já soma 832 mil unidades vendidas, avanço de 16,4% sobre o mesmo período do ano passado. Mais do que isso: o setor finalmente voltou a operar acima dos níveis pré-pandemia registrados em 2019.

Mas o dado mais simbólico talvez esteja em outro ponto. As marcas chinesas seguem acelerando no Brasil em ritmo muito superior ao das fabricantes tradicionais.

Segundo dados da Bright Consulting, os carros chineses chegaram a 40.927 unidades vendidas em abril, o equivalente a 17,3% de participação de mercado. Em março, essa fatia era de 14,7%. O crescimento foi impulsionado principalmente pelos híbridos e elétricos.

Enquanto isso, as cinco maiores marcas tradicionais – Fiat, Volkswagen, Chevrolet, Hyundai e Toyota – cresceram 13% no acumulado do ano. É um resultado positivo, mas abaixo da expansão total do mercado brasileiro.

Pickup Fiat Strada em um cenário rural, estacionada em um caminho de pedras com vegetação ao fundo.
Fiat Strada (Divulgação Stellantis)

Na prática, isso significa que as fabricantes chinesas continuam ganhando espaço de maneira consistente.

Outro ponto relevante é o comportamento do consumidor. Quase 60% das compras foram feitas à vista, segundo a K.Lume. Já os financiamentos seguem pressionados pelos juros elevados e pela inflação acima da meta oficial.

O segmento de carros mais caros também sentiu o impacto do crédito restritivo e recuou 17%.

Mesmo assim, o mercado brasileiro pode terminar 2026 acima das previsões feitas no início do ano por Anfavea e Fenabrave. Parte desse desempenho é atribuída ao programa Carro Sustentável, que já reúne seis marcas participantes.

O que abril mostrou é que o mercado brasileiro continua forte. Mas também deixou claro que o jogo mudou – e as marcas chinesas estão cada vez mais presentes nessa nova fase da indústria automotiva.


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