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Indústria

Brasil pode chegar a 10 GW em armazenamento de energia até 2035

Paulo Rogério

Paulo Rogério

23 de abril de 2026 · 6 min de leitura

Brasil pode chegar a 10 GW em armazenamento de energia até 2035

O Brasil pode chegar a 10 GW em armazenamento até 2035. De acordo com as projeções da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), no Plano Decenal de Energia (PDE 2035), o país pode incorporar cerca de 7 gigawatts (GW) em armazenamento de energia e outros 3 GW em mecanismos de resposta da demanda. Juntos, esses recursos irão atender às necessidades de potência do Sistema Interligado Nacional (SIN). No entanto, sua viabilização depende de um marco legal estável e de avanços regulatórios.

Apresentada por Thais Teixeira, consultora técnica da EPE, esta projeção foi um dos temas tratados por especialistas, autoridades e agentes do setor elétrico durante o Storage Leaders, evento promovido pela Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR) na última semana.

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Estudos apresentados por Jovanio Santos, diretor de estratégia da Deloittem, apontam que as necessidades de flexibilidade de curto prazo podem crescer entre duas e dez vezes até 2035. Nesse contexto, tecnologias como baterias, resposta da demanda e usinas hidrelétricas reversíveis ganham força.

O armazenamento, nesse cenário, também surge como alternativa competitiva às térmicas fósseis, segundo análises apresentadas pela Marília Rabassa, head de consultoria da Clean Energy Latin América (CELA). De acordo com o estudo, o uso de baterias pode reduzir em até 48% os custos totais de capacidade e em até 66% as emissões de carbono, além de contribuir para maior eficiência operacional.

Na ocasião, Ricardo Simabuku, diretor de Gestão de Mercado da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), trouxe análises sobre a volatilidade do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), que já apresenta variações expressivas ao longo do dia — em um caso analisado, entre R$ 61/MWh e R$ 712/MWh — e que pode ser mitigada com o uso de armazenamento, reduzindo custos térmicos e perdas de energia renovável.

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Já na visão de Talita Porto, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Transmissão de Energia Elétrica (Abrate), “o armazenamento deve ser tratado como um ativo de flexibilidade, capaz de reorganizar o uso da energia no tempo e no espaço, aliviar congestionamentos, estabilizar a rede e ampliar a confiabilidade do Sistema Interligado Nacional (SIN)”. Casos práticos apresentados por agentes do setor mostraram que o despacho de baterias já foi determinante para evitar cortes de carga e garantir estabilidade em regiões críticas.

Durante o debate, Renato Ribeiro, da transmissora ISA Energia, trouxe exemplos práticos do uso do sistema de baterias implantado na subestação de Registro (SP), onde o despacho de BESS foi essencial para evitar cortes manuais de carga e proporcionar estabilidade de tensão em regiões críticas, como o Litoral Sul de São Paulo durante a temporada de verão.

Benefícios

Casos práticos apresentados pela Associação Brasileira de Distribuidoras de Energia Elétrica de Menor Porte (ABRADEMP) também evidenciaram os benefícios das baterias: em um projeto piloto em uma distribuidora no Paraná, a implantação de um sistema BESS de 10 MW / 20 MWh demonstrou ganhos relevantes, como melhoria nos indicadores de continuidade do fornecimento, redução de sobrecargas e colapsos de tensão, maior resiliência a eventos climáticos extremos e integração mais segura da geração solar distribuída.

Segundo a entidade, o armazenamento permitiu evitar ou postergar investimentos significativos em infraestrutura de rede, com implantação mais rápida e maior flexibilidade operacional, incluindo resposta em menos de um segundo e capacidade de operação dinâmica por software.

Expansão

No cenário internacional, a expansão das baterias avança rapidamente. Segundo a BloombergNEF (BNEF), a capacidade global saltou de cerca de 1 GW em 2013 para mais de 85 GW em 2023, com forte concentração em China, Estados Unidos e Europa, indicando uma mudança estrutural na forma como os sistemas elétricos estão sendo planejados.

Esse crescimento, segundo a BNEF, é impulsionado pela queda significativa nos custos das baterias. O preço dos sistemas caiu de cerca de US$ 170–180 por kWh para aproximadamente US$ 108 nos últimos anos, tornando a tecnologia cada vez mais competitiva e viável economicamente.

Em muitos mercados, mais de dois terços dos novos sistemas de baterias já estão sendo conectados diretamente às redes de transmissão e distribuição no mundo, ampliando seu papel como solução para planejamento da infraestrutura, adiamento de investimentos em rede e prestação de serviços ancilares. Entre esses serviços, destacam-se regulação de frequência, controle de tensão, reserva de capacidade, black start e integração de fontes renováveis, evidenciando o caráter multifuncional do armazenamento.

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Apesar do avanço tecnológico e do potencial de mercado, os especialistas alertaram para desafios relevantes no ambiente regulatório brasileiro. Para a presidente eleita do Conselho de Administração da Absolar, Bárbara Rubim, o armazenamento é estratégico para o futuro do setor elétrico brasileiro. “Neste sentido, o País precisa superar desafios importantes, especialmente a ausência de um marco regulatório consolidado. Esse tema, discutido desde 2023, ainda carece de regulamentação formal que reconheça e valorize todas as funções do armazenamento no setor elétrico”, pontua.

“A ausência de regras específicas, a dificuldade de remuneração adequada pelos múltiplos serviços prestados e limitações na estrutura de mercado ainda são barreiras importantes ao desenvolvimento do setor. Nesse sentido, o aprimoramento de um mercado de serviços ancilares, com produtos bem definidos e sinais de preço adequados, é fundamental para viabilizar modelos de negócio sustentáveis”, acrescenta Rodrigo Sauaia, CEO da Absolar.

Há ainda expectativa positiva em relação ao Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP – Armazenamento) de 2026, que pode contratar cerca de 2 GW em baterias, embora a Absolar defenda ajustes estruturais, como a ampliação do prazo de contratos e a eliminação de distorções regulatórias.

“Outras medidas como a inclusão do armazenamento no Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da Infraestrutura (REIDI) e a possibilidade de emissão de debêntures incentivadas são fundamentais para destravar investimentos e consolidar o Brasil como protagonista na nova onda tecnológica do setor elétrico global”, conclui Sérgio Jacobsen, vice-presidente eleito de Armazenamento da Absolar.

Evento

Para ampliar o debate e aproximar o tema dos profissionais que atuam na ponta do setor, a Absolar realizará, no próximo dia 21 de maio, em São Paulo, o evento Armazenamento para Integradores. A iniciativa reunirá especialistas, empresas e integradores para discutir oportunidades de mercado, aplicações práticas, modelos de negócio e os principais desafios técnicos e regulatórios relacionados ao uso de baterias no Brasil, reforçando o papel estratégico do armazenamento na expansão da geração distribuída e na modernização do sistema elétrico nacional.

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