Gottardello
E agora, Hyundai? Capitalização cai -40% no trimestre e CEO fala em 100 lançamentos
CEO José Muñoz reafirmou meta de vendas globais de 5,5 milhões de unidades para 2030, prometendo uma margem de lucro operacional acima de 9%

José Muñoz, CEO global da Hyundai (Divulgação)
A Hyundai apresentou nesta semana, durante seu “CEO Investor Day” anual, um ambicioso plano financeiro focado no aumento dos lucros, reforçando a meta de vendas globais na casa de 5,5 milhões de unidades, até 2030, o que elevaria sua participação para 6%, portanto quase dois pontos percentuais acima do pouco mais de 4% com que fechou o ano passado. O presidente-executivo José Muñoz prometeu mais de 100 lançamentos, entre modelos inéditos e reestilizações, para os próximos três anos, sendo que sete deles serão conhecidos em oito meses.
Mas o leitor adulto precisa ter uma coisa muito clara em mente: o objetivo deste tipo de reunião estratégica não é, propriamente, confirmar novos produtos, mas alavancar a capitalização de mercado do negócio, atraindo investimentos que, se forem obtidos, permitirão a ampliação do portfólio. Infelizmente, o Brasil não foi sequer mencionado no evento.
“Até 2030, nossa margem operacional superará 9%, por meio da redução de três pontos percentuais na relação entre custos e lucro”, promete Muñoz. Hoje, Hyundai é a sexta montadora mais valiosa do mundo com uma capitalização de mercado de US$ 76,2 bilhões (o equivalente a R$ 395,3 bilhões), praticamente empatada com a General Motors e imediatamente à frente da Ferrari.
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No último trimestre, esta capitalização caiu assustadores -40%, justamente após a companhia alcançar, em 29 de maio, seu pico histórico de quase US$ 126 bilhões (quase R$ 654 bilhões). Pior, o portentoso anúncio parece não ter empolgado, já que, nos três dias subsequentes à convenção, os papéis da marca caíram -3%, -2,4% e -1%.
Brasil nem foi citado pelo CEO
A ausência de citação do Brasil, quase dois anos após o presidente da montadora, Euisun Chung, ter visitado o país e prometido consolidar a subsidiária nacional como pólo estratégico de mobilidade sustentável dá uma importante deixa: de que seguiremos apartados dos principais mercados globais.
“O novo i20 é um lançamento mundial que estamos fabricando e exportando para toda a América do Sul, incluindo Argentina, Uruguai, Paraguai e Colômbia. A nova plataforma K3 não só dará vida a outros modelos como é apta para uma eventual eletrificação, futuramente”, contrapõe o CEO brasileiro, Airton Cousseau. Mas, por aqui, a Hyundai perdeu o quarto posto na tabela, ultrapassada pela BYD, e 1,1 ponto porcentual de participação, mesmo com alta de 7% nas vendas – já os chineses cresceram 113%.
Apesar da baixa receptividade do mercado de ações, “foram abordados pontos estruturais com ênfase na rentabilidade a médio e longo prazos, no cronograma de desenvolvimento de veículos definidos por software (SDVs), na internalização da produção de baterias e no negócio de robótica”, destaca o gerente para as Américas do Korea International Trade Association (KITA), Hun Sung-soo. “Um ponto notável do plano é que os modelos híbridos deixarão de ser apenas uma solução de transição para a eletromobilidade, na medida em que se consolida como a motorização mais lucrativa da marca, 5% acima da média”, acrescenta.

Uma das explicações para a desconfiança do mercado, mesmo diante das promessas, é a queda de 23% no lucro operacional do segundo semestre deste ano, reportada em julho. “Há muitas dúvidas sobre a capacidade de a Hyundai atingir sua meta de margem operacional entre 6,3% a 7,3% para o fechamento de 2026, devido às condições adversas do mercado. A volta aos lucros dependerá muito do sucesso comercial das novas gerações do – cafonérrimo – sedã Elantra/Avante e do Tucson, que são os produtos de maior volume da marca, em nível mundial”, pontua o analista da corretora sul-coreana Kiwoom Securities, Shin Yoon-chul.
Foco nos EUA
O foco no mercado norte-americano chamou atenção, com a perspectiva de lançamento de dez novos modelos híbridos nos Estados Unidos e a expansão da Genesis (marca de prestígio da Hyundai Motor). Os grandes SUVs e as picapes “full-size”, outra preferência norte-americana, irão furar a fila de desenvolvimento, mas isso não implicará em atrasos nos SDVs – pelo menos é o que se promete.
Como o leitor pode notar, a convenção desta semana é uma espécie de isca que a empresa joga no mar de investidores. Por isso mesmo, as promessas financeiras são mais objetivas, enquanto as relacionadas às gamas e linhas, mais subjetivas – até para que os lançamentos possam ser, simplesmente, cancelados sem chamar tanta atenção ou causar pânico nos acionistas.
“Em relação às baterias, vamos internalizar o design e criar parcerias para a produção por outras empresas. Precisamos de competitividade e vamos focar na qualidade daquilo que projetamos, garantindo o desempenho, o preço e a segurança exigidos para nossos veículos. Terceirizando a fabricação de células e pacotes, evitamos o ônus dos investimentos em instalações de produção de grande capacidade”, explica o vice-presidente-executivo e diretor de soluções energéticas, Kim Chang-hwan. Em 2025, os modelos eletrificados responderam por 23% das vendas da Hyundai, percentual que a montadora pretende elevar para 50%, nos próximos três anos.
No ano passado, o Grupo Hyundai (Hyundai Motor Group) vendeu 7,2 milhões de unidades em nível mundial, sendo 4,1 milhões referentes às marcas Hyundai e Genesis (alta de 2% sobre 2024), e o recorde de 3,1 milhões referentes à Kia. “Vamos ampliar nossa capacidade instalada, nos EUA, em 500 mil unidades, aumentando nosso índice norte-americano de nacionalização de 60% para 80%. A próxima geração do Tucson terá uma variante híbrida, enquanto o novo Santa Fe terá uma versão elétrica com autonomia estendida (EREV) com alcance de mais de 960 quilômetros”, enfatiza o CEO do fabricante, José Muñoz.
Condução autônomo atrasada
Após enfrentar, na Coreia do Sul, a primeira greve do setor automotivo relacionada ao implemento de robôs humanoides nas linhas de montagem, a Hyundai propõe uma expansão em condução autônoma e robótica, buscando consolidar sua posição como uma empresa de inteligência artificial (IA) física.
“A partir do último trimestre deste ano, forneceremos robotáxis para transporte por aplicativo da Waymo, com base no Ioniq 5, mantendo, para 2028, o plano de adoção do robô Atlas, na nossa fábrica norte-americana do Estado da Georgia. A Genesis também lançará seu primeiro modelo híbrido, o GV80”, lista Muñoz.
O roteiro da Hyundai para seu ingresso na condução autônoma também foi definido: “O sistema Atria AI inicia a coleta de dados do mundo real, na Coreia, ainda este ano e o Nível 2+ chega junto com o primeiro SDV que produziremos comercialmente, em 2028, em colaboração com a Nvidia.
Um data center de IA de 100 megawatts com mais de 50.000 GPUs entra em operação, em 2029”, projeta o presidente da divisão de plataformas avançadas da marca e CEO da 42dot, startup de desenvolvimento de software para direção autônoma e mobilidade, Park Min-woo. O problema é que as novas gigantes chinesas já oferecem tudo isso há, pelo menos, três anos.
Ao que parece, a Hyundai precisa de ações e resultados concretos para convencer os investidores. Dos seis critérios futuros analisados, a montadora pontua em apenas um: a previsão de alta nos lucros (quase 15%) está bem acima do índice de correção da poupança.
Mas este crescimento será inferior ao do mercado e não há certeza de que atingirá alta tão significativa, enquanto a receita crescerá – estimativa de 4,5% – menos do que 20% anuais, com previsão de retorno sobre o patrimônio líquido abaixo de 9%, nos três próximos anos. Ao contrário de Stellantis e VW, que estão agonizando, os sul-coreanos têm um planejamento “retilíneo” e em consonância com a disrupção do setor. Agora, é esperar para ver!
















