Eletrificação
Romi-Isetta, primeiro carro nacional (mesmo), terá evento para celebrar seus 70 anos
Ele era nacional, mas não tinha ligação com nenhuma montadora. Por isso, não teve incentivo do governo e morreu. O Romi-Isetta faria 70 anos

Romi-Isetta: primeiro carro nacional (Divulgação)
Em 5 de setembro de 1956 o Brasil mudou para sempre. Nesse dia o país entrava em uma nova fase de desenvolvimento industrial com o lançamento do primeiro carro nacional, o Romi-Isetta. Exatamente 70 anos depois, em 5 de setembro de 2026, essa data histórica será amplamente celebrada no Encontro Nacional de Romi-Isettas, que acontecerá na sede da Fundação Romi, em Santa Barbara d’Oeste (SP), cidade onde o modelo era fabricado.
O evento contará com exposição de documentos de época, desenhos técnicos e fotos históricas abordando a heroica trajetória do veículo. A programação contará ainda com carreata de Romi-Isettas pelas ruas da cidade, gincana para proprietários, loja de souvenirs e distribuição de miniaturas de Romi-Isetta produzidas na hora em uma máquina Sopradora Romi. Também haverá praça de alimentação com food trucks, espaço para crianças e apresentações musicais.
A entrada será gratuita e os colecionadores interessados em expor seus Romi-Isettas no Encontro Nacional podem cadastrar seus veículos por meio do link https://mkt.fundacaoromi.org.br/romi-isetta-70-anos.
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Como foi o dia 5 de setembro de 1956
A chegada do primeiro carro nacional foi marcada por um inesquecível desfile das primeiras 16 unidades fabricadas pelas principais ruas e avenidas de São Paulo. Saindo da R. Marquês de Itu, no Centro, onde ficava a primeira concessionária, o comboio passou sendo aplaudido pelo público ao longo do Largo do Arouche, Praça da República, Av. São Luís e Av. Brigadeiro Luís Antônio, até o Palácio Episcopal, na região da Bela Vista, onde o cardeal D. Carlos Carmelo Motta abençoou os Romi-Isettas.




Roubando a cena por onde passava, a carreata seguiu pela Av. Paulista, Av. Angélica, Praça Marechal Deodoro, Av. São João e Av. Rio Branco até os Campos Elíseos, onde ficava a sede do governo paulista. Lá o então governador Jânio Quadros conheceu de perto o Romi-Isetta e, entusiasmado, declarou: “Honra a nossa indústria, honra São Paulo e honra os brasileiros um carro como esse”.
De lá a caravana tomou o rumo do Largo do Paissandu, passando pelo Viaduto do Chá e Praça Ramos de Azevedo até o retorno à loja na R. Marquês de Itu, onde a seguir foi formalizada a primeira venda: uma unidade nas cores vermelho e creme, chassi 56001, adquirida pela S.A. Industrial de Óleos Nordeste, de Porto Alegre, RS.
Iniciativa não só pioneira, mas corajosa e arrojada
A produção do primeiro carro nacional foi iniciativa da Romi, fabricante de tornos e implementos agrícolas de Santa Bárbara d’Oeste (SP), fundada em 1930. Sempre atuando sob o signo do pioneirismo, a Romi já havia sido responsável pela produção do primeiro trator brasileiro, o Toro, em 1949.
No início de 1955, portanto mais de um ano antes da adoção de medidas do governo federal para incentivar o nascimento da indústria automobilística brasileira, Américo Emílio Romi e seu enteado, Carlos Chiti, se interessaram por um revolucionário veículo urbano chamado Iso Isetta, fabricado na Itália. Importaram duas unidades para estudar sua produção local e, depois de testes e avaliações indicarem sua viabilidade, partiram para uma reunião na sede da empresa na Europa.
A ideia era produzir o veículo no Brasil em parceria, mas a Isetta não tinha recursos, dado o cenário da Itália pós-Segunda Guerra Mundial. Destemida, a Romi decidiu bancar a empreitada sozinha, obtendo a licença de fabricação e pagando 3% de royalties sobre cada unidade vendida.
A Romi, com muita determinação, conseguiu contratar diversos fornecedores nacionais, sendo o principal deles a paulistana Tecnogeral, que produzia as partes metálicas do carro como o chassi e a carroceria. Com isso, já em junho de 1956, a primeira unidade do Romi-Isetta deixava a linha de montagem de Santa Barbará d’Oeste, em um novo galpão erguido na Romi especialmente para esse fim, com um espetacular índice de nacionalização de 72% em peso. O lançamento oficial, porém, ainda esperaria mais três meses, para composição de estoque e constituição da rede de vendas e assistência técnica.
Antecipando tendências em várias frentes
O Romi-Isetta foi o precursor da mobilidade sustentável. Trata-se de um carro urbano, compacto, econômico – tanto no preço quanto no consumo –, prático, ágil, fácil de dirigir e estacionar e de manutenção simples.
O projeto herdou várias soluções técnicas da avançada indústria aeronáutica, origem de seu projetista, Ermenegildo Pretti. Alguns exemplos são a carroceria aerodinâmica, em forma de gota d’água, a porta única frontal (como dos aviões cargueiros), que facilitava o acesso à cabine, ao mesmo tempo em que fortalecia a estrutura do veículo, a grande área envidraçada, como nos caças a jato, e o amplo uso de materiais mais leves e modernos, como o alumínio.
Por suas características únicas, o Romi-Isetta causou uma onda de paixão instantânea nos brasileiros. Além de aclamado pela imprensa e pelo setor industrial, a classe artística também abraçou o carrinho. Vários atores e atrizes muito famosos na época tiveram um Romi-Isetta ou participaram diretamente de suas atividades de divulgação, como Eva Wilma e John Herbert, o que contribuiu fortemente para a popularidade e carisma do modelo.
Avanços técnicos e o fim da produção
O primeira Romi-Isetta usava motor Iso 2-tempos de 236 cm3 e 9,5 hp, com bloco e cabeçote em alumínio em posição central. A velocidade máxima era de 85 km/h e, graças ao seu baixo peso, de apenas 350 kg, o consumo chegava a impressionantes 25 km/l.
Depois de algumas evoluções estéticas até 1958, em 1959 veio a maior mudança: foi lançado o Romi-Isetta 300 de Luxe, com motor BMW 4-tempos de 298 cm3 e 13 hp, que aumentou o desempenho sem sacrificar o consumo. Essa versão também recebeu diversas melhorias técnicas e estéticas, tanto no interior quanto no exterior.
Em 1961 a Romi-Isetta já havia cumprido, com amplo sucesso, seu papel de indutora da industrialização automobilística nacional, que então caminhava a passos largos graças à política desenvolvimentista adotada pelo governo JK. Em 13 de abril daquele ano o último Romi-Isetta, nas cores branco e amarelo-limão, deixou a linha de montagem para entrar definitivamente na história – que agora poderá ser revivida de perto, exatos 70 anos depois de seu lançamento, no Encontro Nacional de Romi-Isettas em Santa Barbará d’Oeste.
Serviço
Encontro Nacional de Romi-Isettas
Data: 5 de setembro de 2026, sábado
Horário: 9h às 15h
Entrada: Gratuita
Site: www.fundacaoromi.org.br
Instagram: @fundacaoromi
Texto: SD & Press Consultoria
Nota do Editor: O simpático Romi-Isetta foi a primeira vítima do lobby formado pelas grandes montadoras transnacionais. Foi uma canetada do governo JK com assinatura do GEIA (Grupo Executivo da Indústria Automobilística), antecessor da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores). Nas regras de incentivos do governo, a definição de automóvel era um veículo com pelo menos duas portas e espaço para quatro pessoas. Como resultado, o Romi-Isetta — que perdeu o status de automóvel e, apesar do sucesso popular, ficou sem incentivo do governo — acabou ficando mais caro do que o Volkswagen Sedan (Fusca). O resto é história.
















