Kalume
Eletropostos: o Brasil está (mesmo) carregando a infraestrutura de carros elétricos?
Nosso colunista apresenta um estudo sobre a expansão dos eletropostos no Brasil e traz dados comparativos com outros 33 países do mundo todo

Crescimento da infraestrutura no Brasil (Guia do Carro/K.Lume/ABVE)
A expansão dos veículos eletrificados no Brasil vai além da oferta de modelos, do alcance proporcionado pelas baterias ou do preços dos automóveis. A pergunta que normalmente acompanha este assunto é, e a infraestrutura pública de recarga, ela está acompanhando este momento?
O estudo que elaboro há anos indica que a rede está crescendo rapidamente. Em setembro de 2026, o Brasil chegou a 29.866 pontos públicos e semipúblicos de recarga, segundo levantamento da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), em parceria com a Tupi Mobilidade. Um ano antes, em agosto de 2025, eram 16.880. O crescimento foi de 76,9%, com a instalação líquida de 12.986 pontos em 12 meses.
A recarga lenta em corrente alternada (AC), passou de 13.025 para 18.469 pontos, avanço de 41,8%, e a recarga rápida em corrente contínua (DC), saltou de 3.855 para 11.397 pontos, crescimento de 195,6%. Em um ano, a quantidade de pontos DC quase triplicou em um ano.
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O dado mais interessante está na composição dessa rede, ou melhor, na alteração do perfil da infraestrutura. Em agosto de 2025, a recarga rápida representava aproximadamente 22,8% dos pontos totais. Em agosto de 2026, passou a responder por 38,2%, sendo mais da metade do acréscimo líquido anual proveniente justamente da recarga em DC.
Isto não indica que a recarga AC tenha perdido relevância, pois ela ainda continua fundamental em condomínios, estacionamentos, empresas e locais onde o veículo permanece parado por períodos prolongados. A recarga rápida atende uma outra necessidade visando a redução do tempo de parada, favorecimento na mobilidade nas rodovias e permite maior rotatividade nos pontos de uso público.
A diferença entre os dois tipos de corrente elétrica não significa uma disputa em que uma precisa substituir a outra, muito pelo contrário. As duas são importantes e complementares. Uma infraestrutura funcional depende da combinação entre o tempo disponível para recarregar, a potência oferecida, o perfil de utilização do veículo e a localização do equipamento.
Na comparação internacional o Brasil melhorou e vem melhorando a cada levantamento que a K.LUME realiza. No que tange a composição da rede, por exemplo, os Países Baixos oferecem um exemplo interessante, pois embora tenham uma rede muito maior em números absolutos, apenas 3,2% dos pontos contabilizados na planilha são DC. No Brasil, a proporção é de 38,2%. Isso não significa que a infraestrutura brasileira seja mais madura ou mais conveniente. Significa que a composição das redes é diferente e que a quantidade de pontos, sozinha, não revela sua capacidade de atender às necessidades dos usuários.
O copo vazio diz respeito a posição do Brasil que ainda aparece aquém dos piores países na comparação dos indexadores dos países que divulgam dados pela União Europeia.
Carregadores públicos e semipúblicos: Brasil x Europa
Comparação internacional de infraestrutura de recarga – 33 países europeus.
| Ranking | País | Brasil (inteiro) | Brasil (parcial) |
|---|---|---|---|
| 1º | Países Baixos | 1.530,76 | 601,66 |
| 2º | Bélgica | 1.050,36 | 412,84 |
| 3º | Luxemburgo | 522,63 | 205,42 |
| 4º | Turquia (Europeia) | 419,06 | 164,71 |
| 5º | Dinamarca | 362,97 | 142,66 |
| 6º | Liechtenstein | 231,52 | 91,00 |
| 7º | Alemanha | 170,83 | 67,14 |
| 8º | Suíça | 137,85 | 54,18 |
| 9º | Áustria | 122,69 | 48,22 |
| 10º | Reino Unido | 120,56 | 47,39 |
| 11º | Malta | 102,80 | 40,41 |
| 12º | França | 101,52 | 39,90 |
| 13º | Itália | 73,91 | 29,05 |
| 14º | Portugal | 42,77 | 16,81 |
| 15º | Suécia | 41,84 | 16,45 |
| 16º | Eslovênia | 37,98 | 14,93 |
| 17º | Lituânia | 31,24 | 12,28 |
| 18º | Espanha | 29,68 | 11,67 |
| 19º | República Tcheca | 27,90 | 10,97 |
| 20º | Eslováquia | 25,17 | 9,89 |
| 21º | Chipre | 22,92 | 9,01 |
| 22º | Grécia | 20,84 | 8,19 |
| 23º | Noruega | 19,87 | 7,81 |
| 24º | Finlândia | 17,51 | 6,88 |
| 25º | Hungria | 16,97 | 6,67 |
| 26º | Irlanda | 16,49 | 6,48 |
| 27º | Estônia | 14,33 | 5,63 |
| 28º | Polônia | 14,15 | 5,56 |
| 29º | Croácia | 12,05 | 4,74 |
| 30º | Bulgária | 11,47 | 4,51 |
| 31º | Romênia | 11,15 | 4,38 |
| 32º | Letônia | 10,01 | 3,93 |
| 33º | Islândia | 8,90 | 3,50 |
Fonte:
European Alternative Fuels Observatory
Elaboração: K.LUME Consultoria.
Quantos veículos para cada ponto?
Até agosto do ano em curso a ABVE contabilizava 639.133 veículos elétricos plug-in no Brasil, considerando modelos totalmente elétricos (BEV) e híbridos plug-in (PHEV) resultando numa relação de 21,4 veículos por ponto público ou semipúblico de recarga.
Essa média, embora útil para acompanhar a evolução do mercado, exige cautela. Dos veículos contabilizados, 313.140 eram BEV, que dependem integralmente de recarga externa e outros 325.993 eram PHEV que são capazes de utilizar também o motor a combustão tornando a necessidade de recarga externa menor e, portanto, diferente para ambos. A relação ideal de 10:1 é um fator internacional definido pela União Europeia, na Diretiva de Infraestrutura para Combustíveis Alternativos (Alternative Fuels Infrastructure Directive — AFID), de 2014.
O problema é que a divisão do número de veículos pela quantidade de pontos não informa quantos carregadores estão disponíveis em determinado momento, se estão funcionando, qual é a potência entregue ou a distância que o motorista precisa percorrer para encontrá-los. Dois mercados com a mesma proporção podem oferecer experiências bem distintas.
Outras questão, principalmente num país como o Brasil, o crescimento da infraestrutura precisa ser observado junto à distribuição geográfica. Em agosto de 2026, o levantamento identificou 1.911 municípios com pontos de recarga, 31,6% a mais do que os 1.452 registrados um ano antes. A ampliação territorial é relevante, mas a presença de pelo menos um ponto em um município não significa que toda a população local tenha acesso conveniente à recarga e nenhum estudo indica qualquer elemento sobre o tema.
O Estado de São Paulo continua na liderança estadual, com 7.864 pontos de recarga, seguido por Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Minas Gerais. O Sudeste concentrava 42,4% da rede nacional, mas há, contudo, diferenças regionais importantes: no Norte, 58,1% dos pontos eram DC; no Sudeste, a participação era de 27,9%.
Esses percentuais descrevem a composição da rede e não necessariamente sua suficiência. Uma região pode ter maior proporção de carregadores rápidos e, ainda assim, apresentar grandes distâncias entre eles ou cobertura limitada em determinados trajetos.
O próximo desafio não é apenas instalar
A aceleração da recarga em DC mostra que operadores e investidores estão ampliando a oferta de equipamentos capazes de atender a uma demanda que vai além da recarga durante longas permanências. Mas a instalação física é apenas uma etapa.
Entendo que os números demonstram que são o crescimento da frota que ensejam a instalação de novos carregadores e não o contrário, apesar de outros excelentes especialistas pensarem diferente.
A conexão à rede elétrica, os prazos para disponibilização de potência, os custos de implantação, a manutenção e a confiabilidade operacional também influenciam a experiência de quem utiliza um veículo elétrico. A própria ABVE aponta as condições e os prazos de conexão de novas cargas à rede como um dos gargalos mais representativos para a próxima fase de expansão.
E nesta nova fase será necessário uma melhor avaliação da qualidade da infraestrutura. Novos indicadores como quantos pontos estão efetivamente operacionais? Qual é a potência disponível? Se existem conectores compatíveis com os veículos que circulam no país? Se o carregador está em uma localização útil para o motorista? Se existe redundância quando um equipamento fica indisponível? Perguntas que ajudarão a garantir que a expansão quantitativa traga efetiva melhoria do serviço.
O Brasil já demonstra capacidade de ampliar sua rede em ritmo expressivo. O aumento de quase 77% no número total de pontos em 12 meses e a expansão de quase 196% da recarga rápida são evidências dessa mudança. Ainda assim, não autorizam concluir, por si sós, que a infraestrutura seja suficiente para qualquer ritmo futuro de eletrificação.
Para quem escolhe um automóvel elétrico, a infraestrutura não se resume ao número anunciado de eletropostos mas se revela na possibilidade de utilizar o veículo sem que a recarga se seja um entrave constante fora do ambiente residencial.
























