Pincigher, o banho de óleo e a corrida da Copa Clio (réplica)

Sergio Quintanilha na Copa Clio em Londrina (Divulgação Renault)

Acabei virando o personagem principal da coluna de Edu Pincigher esta semana e, por óbvio, aqui vai uma réplica. Primoroso como sempre, o texto de Pincigher traz uma visão muito particular dele sobre alguns fatos e contém algumas imprecisões. A primeira delas é a autorreferência de que não escreve tão bem como eu e o Jorge Tarquini – escreve sim, e quase sempre melhor.

Talvez ainda falte ao Edu uma certa reverência a algumas palavras, pois aprendi isso não no jornalismo, mas fora dele, na Academia, escrevendo artigos científicos, dissertação de mestrado e tese de doutorado. As palavras têm poder, por isso precisam ser encaradas como uma arma – para o bem e para o mal.

Mas Edu Pincigher tem a técnica e o talento natural da escrita, cada vez mais raro. Sabe carregar o leitor do começo ao fim de sua história, qualquer que seja ela. Sabe ser emocional ou frio. Sabe escrever nas entrelinhas, o que é mais raro ainda. Usa transições naturais como se tivesse sido batizado na Igreja do Santo SEO, mas, meio rebelde sem causa, muitas vezes “caga e anda” para essa ditadura do algoritmo. Faz bem. De uma forma ou de outra, entretanto, Edu continua sendo refém de suas idiossincrasias.

Um banho de óleo. Pra que? Pra nada

Sobre a corrida de kart, no memorável (para quem esteve lá) GP de Quatro Rodas, não é verdade que eu fui treinar várias vezes em Interlagos. Fui uma única vez conhecer o que era sentar num kart. Ao contrário da equipe de testes de Quatro Rodas, eu não tinha tanta familiaridade com os carros. Eles viviam o dia inteiro nesse meio; o meu era o da redação. E, pelo que eu vi, nenhum deles era marinheiro de primeira viagem naquela corrida.

Mas minha visão daquele dia é outra. Foi o próprio Pincigher quem me incentivou (sem saber) a fazer um treino quando passou a me desafiar: “Vou te dar um pau na corrida”, ou seja, um banho de velocidade. “Ah, é?”, pensei. “Se é assim, preciso me preparar.” E pedi ao João Alberto Otazú, amigo em comum, se era possível fazer um treino de kart em Interlagos.

Mas o Edu estava tão confiante que decidi propor uma aposta: quem perdesse, entre nós dois, tomaria um banho de óleo na cabeça. Pois eu ganhei, apesar de ter feito uma péssima corrida, e naquela alegria toda, pois estávamos felizes só de participar, acabei buscando com os mecânicos um frasco de óleo para “receber” minha aposta. Ele topou, de boa, e acabei pingando óleo sobre sua cabeça.

Pois no minuto seguinte eu me arrependi. E já que o assunto veio à tona, essa é uma das coisas que eu gostaria de não ter feito na vida. Ainda que fosse uma aposta e uma brincadeira, foi também uma forma de bullying. Edu sabe que eu não gosto nem de tirar sarro em palmeirense quando eles perdem para o Corinthians – e dou parabéns quando ganham. Por isso, aquelas gotas de óleo caíram na cabeça dele, mas vazaram para minha alma.

O dia em que Edu Pincigher chorou na pista

A Renault tinha ótimas iniciativas de marketing – uma característica que a montadora francesa mantém viva – e sabia promover a Copa Clio. O convite aos jornalistas era uma delas. Porém, a corrida de Londrina aconteceu na manhã do dia 30 de julho de 2002, o domingo em que o Brasil disputou a final da Copa do Mundo no Japão e ganhou da Alemanha por 2 x 0, levantando o quinto título mundial.

Para quem estava participando da Copa Clio, foi impossível ver o jogo. Afinal, tinha classificação logo de manhã e depois a corrida. E quando você participa de uma corrida você chega muito cedo ao circuito. Por causa disso, vimos só alguns pedaços muito pequenos do jogo numa televisão portátil, com imagem em preto e branco (e era 2002), instalada atrás dos boxes, com luz do sol batendo na tela e várias pessoas em volta.

Corríamos lá quando saía gol ou quando dava tempo. No finalzinho, entretanto, estávamos lá. Eu já estava arrependido de ter trocado uma final da Copa do Mundo por uma corrida de Clio, mas ok. Quando o Brasil ganhou o penta, numa campanha que, a meu ver, não foi muito brilhante e teve ajuda da arbitragem, olhei para o lado e vi o Edu chorando.

Confesso que aquilo me tocou. Por ser “um pouco” mais velho, certas coisas já não me emocionavam mais. Portanto, o penta não me comoveu muito. E até me senti culpado por não chorar. Lembrei da Copa de 70, de 74, de 78 e de 82. Ah, nessa sim eu [quase] chorei. De raiva e de tristeza. Na de 86 também. Depois me emocionei na de 94… e nunca mais.

Quanto à corrida, eu também perguntei ao André Bragantini como ele fazia a curva no final da reta. Ele me disse que mantinha a 4ª marcha até a freada, espetava uma 3ª e só na subidinha para a reta dos boxes colocava 2ª. Bem, aquilo é uma descida em curva, com o muro na cara do piloto, por isso eu colocava 3ª antes e isso já diz tudo.

Tração traseira e tração dianteira

Londrina é uma pista muito técnica e o final da reta dos boxes também é difícil, pois é outra “reta curva” e você tem que frear com o carro todo desequilibrado. Para além disso, em 2002 eu era vice-campeão paulista de kart, tinha ido bem no Campeonato Brasileiro e estava acostumado com outro tipo de pilotagem, com tração traseira e reações rápidas. O Clio era um carro de tração dianteira e todo o peso ficava na frente. A traseira parecia uma bandeira tremulando.

Carro de corrida Renault Clio amarelo em movimento na pista, com o piloto visível e adesivos de patrocinadores.
Edu Pincigher na Copa Clio em Londrina (Divulgação Renault)

Ao contrário do Pincigher, que fez sua carreira nos carros de passeio, eu “militei” a maior parte da carreira no automobilismo. Por isso, sabia a importância – e o custo – de cada corrida para os participantes. E sabia principalmente que um piloto convidado, que estava fora do campeonato, não deveria em hipótese alguma “bater lata” com quem de fato disputava a temporada.

Mas o Edu, empolgado, queria provar para ele mesmo que era tão rápido como os demais pilotos e acabou destruindo a corrida de uma meia dúzia. Não o culpo. Ele não era obrigado a adivinhar. Porém, não houve mais convites para jornalistas no ano seguinte e desconfio qual tenha sido o motivo. Sorry, mate.

Na corrida, largando entre os últimos, decidi ir sentindo o clima. Aos poucos, ganhei algumas posições. A cada volta eu estava mais rápido do que os carros da frente. Até que, mais ou menos na metade da corrida, o piloto Wagner Canhedo Filho (filho do ex-fundador da Vasp) acabou me tirando da pista. Perdi algumas posições e tive de remar de novo. Quando deu uns 20 minutos de corrida, comecei a ver as barbaridades que os pilotos estavam cometendo na pista.

Gente, vocês não têm ideia: os caras não conseguiam fazer uma tomada correta, o traçado limpo tinha ido para as catacumbas. Era cansaço. Eu estava inteiro, pois corria de kart. Mas os caras estavam com a língua de fora. Fazia um calor infernal. Até que encontrei o Edu. Dirigia em zigue-zague, parecia estar muito cansado também.

Vou passar. Ops, fechada. Agora vou, ops, no meio da reta? Meu, que traçado é esse? Assim vai ser complicado. Notei que o carro dele estava amassado. Pensei: deixa pra lá. A corrida já estava acabando e, considerando aquele banho de óleo, ele merecia ganhar essa. Sem mágoas.


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