Citroën “subiu no telhado” da Stellantis: Peugeot, Fiat, Jeep e Ram ganham força

Citroën ë-C4 X: a marca da inovação espera por um futuro (Divulgação Stellantis)

Antonio Filosa, CEO global da Stellantis, não tem compromisso sentimental com nenhuma marca francesa, ao contrário de seu antecessor, Carlos Tavares, que foi presidente da extinta PSA. Filosa é italiano e pragmático. Por isso, a Citroën “subiu no telhado” da Stellantis.

Como diz a anedota do gato português, subir ao telhado é a antessala da queda. É difícil sobreviver. Ao contrário do gato, a Citroën não vai morrer — não globalmente. Mas, no Brasil e na América do Sul, o futuro da Citroën está seriamente ameaçado.

O que aconteceu

A Stellantis desistiu da estratégia de ter várias marcas gigantes. Sinergia é uma coisa, equilibrar 13 pratos girando no ar mesmo tempo é impossível. Filosa chegou à conclusão de que “quatro pratos” dá pra equilibrar; mais do que isso, não. Por isso, decidiu que a Stellantis terá apenas quatro marcas grandes.

As quatro que se salvaram são: Fiat, Peugeot, Jeep e Ram. Filosa foi cirúrgico e agiu como um verdadeiro “estadista” ao equilibrar interesses dos acionistas europeus e americanos. Duas marcas representam a Europa: a italiana Fiat e a francesa Peugeot. Duas defendem as horas da indústria norte-americana: Jeep e Ram.

O papel da América do Sul

Um componente extra pesou na decisão de Filosa — e provavelmente Tavares não teria motivação para cortar a Citroën, considerando seu papel histórico, que é maior do que a de todas as quatro que não subiram no telhado. Este componente chama-se América do Sul.

Se fosse por seu papel global ou europeu, era a Fiat que estaria miando no telhado e não a Citroën. Mas a Fiat é uma mina de ouro no Brasil e também é muito forte na Argentina. A Peugeot não significa nada no Brasil, mas tem força na Argentina. Para além disso, seu posicionamento global é mais “pé no chão” do que o da Citroën.

Detalhe de carros clássicos em um evento automotivo, incluindo um Peugeot 403 em primeiro plano.
Peugeot 403: seis décadas de história na Argentina (Divulgação Stelllantis)

Jeep e Ram também têm grande potencial na América do Sul. A Jeep, na realidade, por seu sucesso estrondoso no Brasil, foi a responsável pelas recentes promoções de Antonio Filosa dentro da Stellantis. Com a chegada do Avenger, abaixo do Renegade, vai voltar a disputar o sexto lugar do mercado.

Quanto à Ram, foi uma escolha natural, devido à sua força nos Estados Unidos e ao forte apelo aspiracional que suas picapes têm no Brasil. Se a Dakota conseguir se impor no segmento de picapes D (médias-grandes), seu crescimento a partir da Argentina será muito importante para o grupo.

Como ficarão Citroën, Dodge, Alfa etc.

Além das quatro pérolas que a Stellantis resolveu valorizar e da expurgada Citroën do grupo das protegidas, a Stellantis ainda tem uma penca de marcas que lutam para sobreviver.

A Alfa Romeo, coitada, subiu no telhado junto com a Citroën. Vão miar por um passado glorioso, mas ninguém vai ouvir. Há informações de que o clássico Citroën 2CV voltará ao mercado como um carro elétrico popular.

Carro compacto amarelo com detalhes em preto, lado direito visível, rodas brancas e estilo moderno.
Projeção do Citroën 2CV elétrico (Reprodução Auto Express/Avararii)

A Opel e a Vauxhall nada mais são do que a Peugeot com sotaque alemão e inglês. A Lancia não tem forças nem para subir ao telhado. A Maserati está bem, pois há tempos se posicionou como marca de luxo, deixando a Alfa Romeo com uma esportividade que é muito para a pequena burguesia, mas é pouco para os verdadeiros burgueses.

Do lado de cá do Atlântico, a Dodge vive das sobras da Alfa Romeo e se segura com dois modelos arrebatadores (Charger e Challenger) enquanto os motores a combustão tiverem adeptos. A Chrysler já caiu do telhado há muito tempo, mas esqueceram de enterrar.

Conclusão

Tirante a injustiça com a Citroën, que é obrigada a sempre ceder a vez para a Peugeot, Filosa agiu certo ao reduzir para quatro os pratos que estão girando no ar. Fiat, Peugeot, Jeep e Ram foram as escolhas racionais.

Resta agora achar uma razão de existir para a Citroën, mesmo que seja num nicho. A Stellantis poderia começar devolvendo-lhe a alma: nada de ser uma Fiat piorada (Brasil) ou um clone da Peugeot (Europa). A inovação acessível é o único caminho para a Citroën não cair do telhado.


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